Lá estava ela. Com seu olhar lânguido, de ressaca. Não, não costumava beber. Mas tinha aquela expressão de quem estava sempre muito longe, pensando em coisas sérias e suspirando… mas o suspiro lhe entregava: ela era uma criatura de volúpia, de desejo e de ideais. Entretanto, ninguém sabia ao certo o que se passava, o que ela pensava. Só sabiam que ela tinha um quê de mistério.
Acordava todo dia cedo, preocupava-se com suas obrigações até em excesso. Afinal, aprendera a ser perfeccionista e levava tudo isso à flor da pele. Ela até tentava não ‘estar nem aí pra nada’…mas sempre sorria com aquele risinho irônico só dela: sabia que não adiantar mentir pra si mesmo, afinal a mentira deixaria de ter sentido. (e o sentido das coisas, era sempre o que procurava)
Gostava de caminhar, de ver pessoas, de brincar com seus cães e gatos. No fundo, bem lá no fundo – e aquilo era segredo só dela – ela era uma criança grande e perdida. Daquelas que andam na beira da estrada observando e se maravilhando com tudo. Gostava de pensar assim “me surpreendo a cada dia, não me reconheço portanto em nada”. Pois é. Nossa personagem não tinha percebido ainda que aquilo sim, era uma mentira – e das grandes.
Certo dia, sentada na praça movimentada do centro da cidade um conhecido começou uma conversa despojada, do tipo que se tem quando não se tem nada para falar. O tempo, a política e o jeito misterioso dela de ser. Ela sabia daquilo e até gostava. Sua vaidade aflorava ao saber que era no mínimo instigante. Sentir-se então diferente era para ela uma delícia: um prazer narcísico. Imaginava-se sendo imaginada em situações fantasiosas, com detalhes preciosos.
Gostava de instigar a imaginação e a fala das pessoas. Quanto mais falassem, quanto mais revelassem sobre si era para ela um espelho daquilo que procurava compreender. Seu riso, seu olhar e até seus suspiros eram uma escada rumo aos segredos inconfessáveis, à intimidade única e assustadora de cada um. Sim, alguns a temiam. A acusavam de ser manipuladora, fria… calculista. Ninguém suspeitava que seu modo de ser era somente uma forma de proteger-se. Sim, pois vejam só: a nossa personagem temia perder o controle de seu desejo. Ao entrar em contato com o desejo que despertava, tinha que por um freio no seu próprio. Afinal, aquele sentimento, aquela sensação a levava por caminhos impublicáveis de conhecimento, de compartilhamento e de descobertas. Seu desejo por desejo era de sempre mais. Como uma eterna busca por algo que não tem fim, que cresce de maneira exponencial a cada etapa atingida.
Nossa garota não tinha idéia – e nisso seu instinto falhara – que aquele papo descontraído no centro da cidade seria a maior viagem de sua vida. Por isso não preocupou-se em armar suas barreiras e deixou-se levar…
(continua
)
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