amores literários platônicos

Recebi esse meme do meu querido Jorge Alberto, do Recanto das Palavras

Então… se é para falar sobre 5 autores favoritos…vamos lá… ai mi corazón!

  • sartre

tinha 17 anos e havia acabado de entrar na facul… numa aula a professora menciona ‘Jean Paul Sartre’ filósofo francês fundador do existencialismo…[ achei o nome chiquérrimo e prestei atenção na aula direitinho]: má-fé, escolhas, livre-arbítrio, liberdade, solidão, niilismo… um mundo tão novo de significantes… me apaixonei e corri para ler ‘a náusea’…desde então sou fã deste zoiudinho zarolho… que me conforta sempre quando me sinto muito só… afinal… ‘ o momento passa, e estamos sós novamente’.

  • fernando pessoa

sei nem o que falar…volta e meia menciono esse meu amor-platonico-almo-gemeo-amado-salve-salve… conheci o pessoa quando tinha 12 anos, num livro de português na escola…

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

[álvaro de campos – f.p.]

Então… fiquei maravilhada ao conhecer seus heterônimos… perceber que ele se sentia tão multiplo… saber que cada um possuia uma biografia detalhada e específica… daria um mundo para voltar no tempo e conhecê-lo pessoalmente… outra que me abalou quando li:

INTERVALO

Quem te disse ao ouvido esse segredo

Que raras deusas têm escutado -

Aquele amor cheio de crença e medo

Que é verdadeiro só se é segredado?…

Quem te disse tão cedo?

Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?

Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?

Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?

Foi um desejo que, sem corpo ou boca,

A teus ouvidos de eu sonhar-te disse

A frase eterna, imerecida e louca -

A que as deusas esperam da ledice

Com que o Olimpo se apouca.

ai meu coração… por falar em coração:

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Ainnnn

  • cecília meireles

cecília… outra que amaria ter conhecido… nossa… melancolia, tristeza… saudade… é um lado meu que vejo tão bem espelhado… também a conheci aos 12 anos… nesse mesmo livro de português… a poesia:

timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…
– mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras distantes…
– palavras que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponhos vestidos noturnos,
– que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão nevegando
nos ares certos do tempo
até não se sabe quando…
– e um dia me acabarei.

tão trágica, né?…

me reconheci na hora… as palavras…o embalo… nossa… lembro que na sexta série, a professora pediu que eu lesse:

Interlúdio

As palavras estão muito ditas

e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.

Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente – claro muro
sem coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.

Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.

Fico ao teu lado.

qdo terminei de declamar, a sala toda aplaudiu… me senti o máximo né… e desde então declamo poesia para mim, no espelho…sempre que possível…

e esta frase, de sua biografia… se escrevesse algo…na minha biografia de até então…com certeza a parafrasearia…

(…) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.”

  • steven pinker

Estava eu na livraria, nos idos de 2001 quando dou de cara com um livro enoooorme chamado ‘como a mente funciona’… capa branca, letras pretas e o ‘on’ em vermelho… comecei a folhear… robótica, inteligência artificial, consciência, neurociência, sociedade, laços familiares, genética, comportamento… dentro do carro, voltando pra casa comecei a ler… devorei as qse 500 pags do livro em 3 dias… pensei: ‘é isso que quero fazer qdo me formar em psicologia… é compreender as relações humanas desse ponto de vista… ai como gostaria de estudar no MIT’… daí para conhecer dawkins, buss foi um pulo… um dia, quem sabe…

  • leminski

então, sempre fui uma nerd literária…e lá pelas minhas visitas à biblioteca, dou de cara com um tal leminski… pensei: ‘xi…esse deve ser russo…vou pegar pra ler’… aí, qdo abro o livro pela metade, dou de cara com essa beleza:

o
soo
u
oou
o
sin
o
sou
o
sig
n
gno
n
nim
o

cara, lembro da emoção ao correr os olhos por esses símbolos…pensei: ‘putz grila! como ele fez isso?”

foi paixão à primeira vista…

DESENCONTRÁRIOS

Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.

não tem muito o que falar… e sim muito para perceber e sentir…leminski é um dos que mais possuem cores e cheiros para mim…

overdose total…


DONNA MI PRIEGA 88

se amor é troca
ou entrega louca
discutem os sábios
entre os pequenos
e os grandes lábios

no primeiro caso
onde começa o acaso
e onde acaba o propósito
se tudo o que fazemos
é menos que amor
mas ainda não é ódio?

a tese segunda
evapora em pergunta
que entrega é tão louca
que toda espera é pouca?
qual dos cindo mil sentidos
está livre de mal-entendidos?

 

[tantos outros mais… falaria ainda de neruda, de florbela, de gaiman… mas se ao falar desses cinco, meu coração palpita e sou inundada por cores prefiro portanto parar por aqui…antes que tenha um piripaqui sinestésico-literário! vou pensar em quem indicar pra continuar o meme… ^^ ]

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  1. Gosto muito do Fernando Pessoa e suas tantas formas. Sartre é um fenômeno na filosofia. Cecília nos leva a conhecer traços tão pessoais. Paulo Leminski escreve com quem respira, tão consciente e tão alheio ao que fez, é fascinante. Por falar nele, há um concurso literário na minha cidade Natal (Toledo – PR) em homenagem a ele. Um concurso de contos. Os escritores que mais gosto? É uma escolha difícil, depende o gênero, mas sempre há aqueles companheiros de viagem, festa, tristeza, amigos fieis e inseparáveis.

    Beijo e até mais.

  2. Meus 5+ estão em eterna transformação, mas vamos lá: a lista de agora. 1) Guimarães Rosa. “Grande Sertão – Veredas” é o primeiro da minha lista de 50 livros marcantes. Fundamental. 2) John Fante. Amei “Pegunte ao Pó” e o personagem Arturo Bandini, com seu humor, lirismo e ingenuidade de aprendiz de escritor. Tem uma frase nesse livro que Leminski comenta na tradução que fez, como exemplo da sutileza do idioma: “I was twenty then”. Tanto pode significar “Eu tinha 20 anos na época” como “Eu me sentia como vinte [homens] na época”. 3) Jack Kerouac, pela maneira apaixonada como contou e viveu a amizade, a aventura e a estrada. Dois livros em que sempre busco inspiração: “On the road” e “Vagabundos Iluminados” (Dharma Bums); 4) García Marquez. Tanta coisa boa! Gosto especialmente de “Amor nos tempos do cólera” e “Crônica de uma morte anunciada”. 5) Rubem Braga. Eu queria escrever como ele. Isso diz tudo.

  3. Adorei. Tanto,mas tanto,que tive de parar no meio do post para estudar a Desencontrários. Obrigada por mais uma vez iluminar minha vida simplesmente sendo quem vc é. Bjos


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