ourobóros

A serpente, assim como o homem, distingue-se de todos os outros animais [ não pensemos no ornitorinco, ok? ]. Se o homem está situado no final de uma longa história de sucesso adaptativo e genético, também é necessário situar essa criatura fria, sem patas nem pelos e muito menos plumas, no início desse mesmo esforço.

Nesse sentido, homem e serpente são opostos, complementares, rivais.

Nas origens da vida: serpente, alma e libido

O simbolismo da serpente está efetivamente ligado à própria idéia de vida, em árabe a serpente é el-hayyah e a vida, el-hayat; e acrescenta – o que é de capital importância – que El-Hay, um dos principais nomes divinos, não deve ser traduzido por o vivo, mas por o vivificante, aquele que dá a vida ou que é o próprio princípio da vida.

A serpente é um velho deus primário que reencontraremos à origem de todas as cosmogêneses, antes que as religiões do espírito a destronem. É aquilo que anima e que mantém. No plano humano, é o símbolo duplo da alma e da libido.

No tantrismo, é a Kundalini, enroscada na base da coluna vertebral, sobre o chacra do estado de sono. Quando desperta, a serpente sibila e se enrijece; opera-se, então, a ascensão sucessiva dos chacras: é a subida da libido, a manifestação renovada da vida.

Ourobóro ou Uróboro

A serpente sobre a forma de urobóro abraça a sua própria criação: Ela morde a própria cauda, num círculo contínuo que impede a sua desintegração. Ela é símbolo da manifestação e reabsorção cíclica; é a união sexual em si mesma, autofecundadora e permanente, como o demonstra a sua cauda enfiada na própria boca; é transmutação perpétua de morte em vida, pois suas presas injetam veneno no próprio corpo ou da dialética material “da vida e da morte, a morte que sai da vida e a vida que sai da morte” [Bahelard]

Se ela evoca a imagem do círculo, seria a primeira roda, de aparência imóvel, uma vez que só gira em torno de si mesma, mas cujo movimento é infinito, pois leva perpetuamente a si mesma. A urobóro, animadora universal, não é apenas promotora da vida, mas da duração: cria o tempo, como a vida em si mesma. É o velho símbolo de um velho deus natural destronado pelo espírito, permanece uma grande divindade cosmográfica [zodíaco] quanto geográfica: como tal aparece gravada em pedra, em diversos lugares do mundo representando este ciclo eterno e imutável.

Eterno Retorno

A urobóros contém, em seu simbolismo as idéias de movimento, continuidade, auto-fecundação e, como consequência, de eterno retorno. A forma circular da imagem deu lugar a uma outra interpretação: a união do mundo ctônico [figurado pela serpente], e do mundo celeste [o círculo]. Essa interpretação seria confirmada pelo fato de que o uróboro, em certas representações seria metade preto e metade branco. Significaria assim a união de dois princípios opostos, a saber: o céu e a terra, o bem e o mal, o dia e a noite, o Yang e o Yin chinês, e todos os valores que esses opostos comportam.

A serpente que morde a própria cauda, que não pára de girar sobre si mesma, que se encerra no seu próprio ciclo, lembrando-nos mais uma vez a roda das existências, o sansara, como que condenada a jamais escapar de seu ciclo para se elevar a um nível superior: simboliza então o perpétuo retorno, o círculo indefinido dos renascimentos, a repetição contínua, que trai a predominância de um fundamental princípio de morte [renascendo sempre, vidas e mortes e vidas… sempre e sempre… ]

Um pouquinho de filosofia:

“Tudo retorna sem cessar. Se o universo tivesse um objetivo, já o teria atingido; se tivesse alguma finalidade, já a teria realizado. Não existe um deus, soberano absoluto, com desígnio insondáveis. Todos os dados são conhecidos: finitos são os elementos que constituem o universo finito é o número de combinações entre eles; só o tempo é eterno. Tudo já existiu e tornará a existir. Cada instante retorna um número infinito de vezes, cada instante traz a marca da eternidade. O universo é animado por um movimento circular que não tem fim.”

NIETZSCHE [e tem gente que acha que o meu amado tio bigodudo era ateu ;) ]


e…

o que será que a bela adormecida, jormungand, moiras e o arcano X do Tarot tem em comum? ;)

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  1. a bela adormecida fura o dedo numa ROCA, uma roda que gira e tece o fio (da vida)
    jormungand é uma serpente que cresceu tanto que “abraça” o mundo e morde e própria cauda
    o arcano X é a “Roda da Fortuna”
    e as moiras tecem o fio da vida na roda da fortuna, controlando o destino do mundo!
    ADOREI você correlacioná-los todos! :)

  2. Pingback: ESU*: O que acontecerá quando você morrer? « i η t e η s i d α d e

  3. Olá!

    Só passando para agradecer por ter relacionado nosso site entre seus essenciais.

    Grande abraço.

    Lancelot
    Equipe Viciados em Livros

  4. Pingback: “desenha-me um carneiro?” « i η t e η s i d α d e


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