companhia

25 05 2008

caminho pelo corredor - ele me fita assustado

seus olhos azuis fuzilam-me, com sons inaudíveis

sigo por entre passos silenciosos abafados pelas meias de algodão decoradas com joaninhas e tulipas

entre mundos aqui e ali, me segue

com seu andar majestoso e felino de quem já conhece o caminho

saboreio o líquido gelado

ele observa silencioso os transeuntes invisíveis do aposento

volto ao quarto ouvindo o tilintar de sua corrente

- artificio vulgar para domar e nomear seu espírito eterno e livre

sento-me defronte ao computador. o guardião aconchega-se em meu colo

ouço o ronronar tranquilo do meu protetor felino…

“o que será que os gatos sonham…”

melhor não saber…watch?v=SMEyI9SaU-g





olhos negros [conversas no msn]

28 04 2008

PRÓLOGO

Hipólito sonha acordado para ver o sol nascer diz:

leu meu conto bic mac sem picles?

escrevi no msn

pra vc ler na viagem

yhahT diz:

nao li :(

Hipólito sonha acordado para ver o sol nascer diz:

é bic mac sem picles

pq é feito na hora

e especial pra vc

Olhos Negros


Era uma vez

uma menina que viajava pelas estradas de ouro fino

e, de longe, avistava a figura de um menino

nao nao…

essa é outra história


Era uma vez

uma menina muito linda

Ela trazia no olhar

restos de um sol que ja se foi

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traição…

8 04 2008

Eis um assunto delicado que envolve a vida de toda e qualquer pessoa que se dispõe a viver um relacionamento… [mas sabia que na minha concepção, a pior traição é a da gente com a gente mesmo?]

Então… Quais motivos levariam uma pessoa a trair? Leia o resto deste post »





microconto I

12 03 2008
  1. a marca carmim na manga do amado fez a princesa desistir e virar meretriz.
  2. kama-sutra: ama na cama e surta
  3. de três emtrês segundos o peixe muda o prumo devido ao susto do gato a espiar

amiga, finalmente parece que aprendi a pensar de um modo ‘microcontesco’

brigada pela tua influência ;)





despertencimento

24 01 2008

palavra longa

difícil de ser pronunciada.

“deixar de pertencer a algo gradativamente…” - racionalmente verbalizo.

é um perder-se lentamente… recolhimento do corpo como um caracol ou casco de tartaruga e andar sem rumo, pelas ruas…

observar as casas e calçadas…sentir o sol queimando a nuca… queimando aquele pedaço de pele reservado aos muito próximos e sentir-se extremamente só.

passar por entre roupas penduradas nas cordas ao longo das calçadas e perguntar-se por um momento o quão absurdo é passar por entre calças, saias e camisolas penduradas sob o sol do meio dia, sem sentir vergonha ou pudor por deixar a intimidade exposta desta forma…

talvez a intimidade também seja uma questão de perspectiva…

o barulho dos passos, a poeira que sobe… o coração acelerado ao ser exigido - subitamente - a bombear mais sangue, ruborizando a face ante o olhar da senhora com um centenário sofrimento.

despertencimento por localizar-se num cenário estranho à própria essência.

levo-me por entre ideais e valores. deixo que eles definam e me reconstruam.

dostoiévski me relembra: ‘como pode respeitar-se , por pouco que seja, um homem que se conhece a si mesmo?’ …

como não rir desse passo-a-passo…do passado… do cheiro de pão a me inundar o sentido… nesse caminho de regresso.

tomo um banho demorado.

escrevo estas palavras, sem buscar um sentido.

sentidos são previsíveis e direcionados… [e como me aborrece as pessoas com sentido... aquelas que teimam em explicar tudo definitivamente e não sabem sequer onde esqueceram a carteira ou relógio]

meus sentidos me inundam, definitivamente já me basta estes cinco, seis…  que a natureza me dotou.

só por hoje, não sinto.

absorvo.





c o m p u t a n d o

27 10 2007

[texto antigo que merece um 'replay']

Mais uma madrú, cinco janelinhas piscando no msn… charada resolvida na comunidade mitologia grega… livros, análise de entrevistas e a conclusão da monografia na minha frente…

- Psiu…

- Anh?! Quem tá aí?

- Ora… quem mais…

- Ah meu deus! Aconteceu! Eu pirei…

- Relaxa… te acompanho desde que você nasceu.

- mimimi… eu sabia, sabia… que estudar tanto um dia daria nisso… ai meu deus… no party and no tequila make thahy go crazy!

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Protegido: live and let die

20 10 2007

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o banquete

9 10 2007

Tudo preparado para a surpresa que prometera.

As luzes do quarto, os ingredientes… Até o incenso que achara melhor deixar para depois. Tudo lá.

Observava-a:

Seu corpo sinuoso sibilava insinuante sob os lençóis. O olhar tão dela emitia palavras inconfessáveis ao padre ou pastor. Seus lábios e o sorriso - pecaminoso - indicavam o que desejara: O ritual.

De olhos vendados, contorcia-se de curiosidade e … [vocês sabem]. O corpo da gueixa era um campo de experimentos, com os ingredientes posicionados à altura de suas mãos. ‘Sorvete, primeiro’ - pensou maldoso.

Com a boca, instigou seus lábios - a língua quente, úmida derretera todo o sorvete ao lambê-la. A respiração ofegante o excitava. A ter presa daquela forma era tudo que desejara - não confessaria tão cedo, claro.

Pausa.

Observa.

O corpo contrai-se, o desejo percorre cada espaço de sua pele num arrepio que ouriçava-lhe as quentes carnes. O cheiro do incenso era especialmente provocante. Sua respiração profunda e suas pernas dançavam um balé privado particularmente erótico. ‘Eros…morangos, agora’. Levara um morango maduro e doce até seus lábios.

‘Gulosa’ - excitava-se - ‘Vejamos o que mais ela sabe fazer. Lambuzara o morango na calda de sorvete explorando seus sentidos. Lambera sua pele doce e macia. Sua boca mordiscava a fruta com uma cara de imenso prazer. ‘Vinho…Morango e vinho tinto’- ela sugou a fruta imersa em sua bebida favorita. Ele controlara-se até então.

Pausa.

Observa.

Inundada por seus sentidos e sentindo sua falta, tentou tirar a venda. Rapidamente sentiu ambas as mãos contra o colchão. Aquilo definitivamente era novidade… ‘Então és realmente forte’ - provocara com sua voz insinuante.

Leite condensado - último ingrediente. Cedeu. Era hora de receber sua gratificação. Desvendou-a - cada centímetro. Enlouqueceu-se - cada milímetro. Calou-se - num urro de prazer. Mudo, deitou-se. ‘Um banquete completo em minha cama’ - adormeceram.





O menino azul encontra o Sol

6 10 2007

Era uma vez um menino azul que gostava muito, muito mesmo do dia. Ele corria, pulava, aprendia e dava gargalhadas contagiantes pela casa. Azul gostava de ver as coisas como são: sem sombras e sem medo. O dia era assim para o menino: amarelo, com cheiro de laranja e muito azul no céu. (procurava carros nas nuvens, quase não os achava… Talvez o vento não soubesse como são)

Quando a noite chegava, azul corria para acender todas as luzes: não gostava de não saber o que havia ao redor. E sempre que a noite tomava tudo de direito, o menino gritava para a lua: ‘Não gosto de você! Quero meu sol de volta!’. A lua nunca o respondia… continuava mudando a cada noite, cintilando a cidade com suas companheiras estrelas. O menino então adormecia, não tinha tantas forças assim para esperar por amarelo.

Certo dia, ao sentir os primeiros raios da manhã, correu até a janela e levou um susto quando viu seu amigo amarelo a seu lado. “Sol, você chegou!” – exclamou o menino com alegria. “Sim, vim conversar com você” [sua voz transmitia uma calma alegre muito confortável, o menino nunca mais a esqueceria]

- Azul, o dia e a noite são complementos. Quando estou no céu, vocês enxergam as coisas como são: vocês trabalham, brincam, amam, brigam, etc. Mas somente durante a noite que vocês percebem seus medos: é na escuridão que vocês realmente se conhecem. Por isso que a noite é tão importante.

Como vocês poderiam me dar o devido valor e respeito se não conhecessem seu lado negro? Como sentiriam minha luz e calor , se não entrassem em contato com teus medos e com a tua solidão? Na verdade, caro amigo, meu papel só existe por causa da amiga lua. Se ela não existisse, os dias seriam sempre claros, vocês só veriam o mundo como ele é. Não perceberiam como vocês sentem o mundo…de que forma ele te afeta. É por isso que somos complementos.

É por isso que durante a noite existem estrelas: estrelas são pequenos sóis. Milhares de pequenos sóis a brilhar por um espaço sem fim. Na escuridão da noite, quando estiveres realmente só lembra-te: o que importa no final, não é a luz que te guia e te mostra o caminho. Mas sim, a noite que te amedronta e te empurra a tomar cuidado com teus passos.

Teus medos são os teus guias. Não os transformes em monstros. Dessa forma, cada dia será bem aproveitado… e no negrume da noite tu poderás sonhar.

O Sol amarelo despediu-se do menino azul. Apesar de não ter entendido tudo – afinal, era uma criança – sabia que aquelas palavras iriam acompanhá-lo sempre.

Fim

[história contada ontem a noite, para o gu dormir...]





cerejas e vinho tinto

29 09 2007

A noite começara bem. Divertira-se com suas amigas, com brincadeiras e risadas que só mulheres conhecem na intimidade (talvez proporcionando alguns pensamentos masculinos repletos de bobagens).

Como de costume, fora pontual. Conversaram bastante, tão naturais. A vida tem dessas surpresas… Afinal, pode-se viver uma vida ao lado de alguém e não se reconhecer. Por isso, estranhavam o conforto frente um ao outro. Escolheram um restaurante agradável, descobriram segredos e verdades por entre olhares e gestos (sorrisos).

Os beijos discretos rasuravam lentamente o destino planejado para a noite. ‘O meu vinho está a tua espera’ -sussurrou.

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amiga

19 09 2007

- e tem a cândida também.

- anh?! quem é essa?

- ah, a minha companheira de banheiro

- hmmm, isso tá começando a ficar interessante.

- é?! eu nao acho… a cândida vive me assustando.

- hehehe, detalhes por favor…detalhes!

- bah, coisas do tipo: tô lá e tal, passando xampoo e quando percebo tchum! aqueles olhinhos estrábicos me olhando.

- estrábica, sei…te olhando…você tomando banho… hmmm, continua…

- aí páro tudo, né? ser observada enquanto tomo banho pela cândida é meio desconfortável

- hehe, só pra vc querida. tô adorando imaginar a cena…

- outras vezes entro lá, toda pirilante da vida e quando percebo, PÁ! Ela aparece de uma vez e pula pro outro lado

- peraê, a candida pula pro outro lado?! ela vive no banheiro?! coitada…

- é, rapaz! um dia ela saiu de dentro da torneira quase me matando do coração!!!

- Menina…me diz o que você tá usando…pode ser arriscado, sabia?

- Aff maria… você que nao entendeu…a cândida é uma RÃ!

- Arrrgggggg….. que nojo! Sai pensamento, saaai!





Protegido: arrepio

17 09 2007

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frutas vermelhas (final)

8 09 2007

Todos a observavam muito atentamente. Apesar da idade avançada, gostava de colorir suas bochechas e boca. Cantarolava algumas canções antigas enquanto fazia esse pequeno ritual. Em seu quarto guardava dois mimos: uma pequena bailarina de cristal sobre um espelho e um broche em forma de morango incrustado de rubis. Não se lembrava de quem os havia dado. Já esquecera de muitas coisas, muitos rostos (tantos rostos). Mas o sorriso largo e o gosto do beijo nunca deixaram seu instinto. Sua memória era falha, mas disso lembrava: do carro, do cheiro da cidade, de seus brincos de cristais, do vermelho e do olhar de prazer que recebera.

Ao chegar do encontro tudo havia mudado. Seus olhos riscados pelo vermelho não permitiria que continuasse com aquela vida premeditada, cheia de destinos. O fogo interno que havia sentido aquela noite… que lhe trazia paz. Remoia-lhe por dentro e trazia calma. Era disso que precisava: sentir-se viva, sentir-se útil. A notícia de que havia fugido ao anoitecer pegara todos de surpresa. Não queria mais reencontrar aquele que lhe despertara. Sabia que precisava conhecer novos tons de vermelho.

Pelos corredores sussurravam entre dedos que em sua mocidade fora a cortesã mais cara da cidade. Comentavam que a sua sede de desejo a conduzira por uma vida de magoas e tristezas: surras em quartos de hotel, ameaças de morte e muita gente influente em suas mãos. Os mais fofoqueiros não sabiam como havia terminado no asilo, com suas contas pagas sempre em dia, roupas novas e muitos perfumes…Mas nenhuma visita.

Na sala com outros de sua idade, ria por dentro. Não esperava viver tanto, mas sabia que vivera mais do que muitos ali. Quem se demorava um pouco mais a olha-la percebia em algum lugar do seu sorriso algo ainda de desejo. Seus olhos já acinzentados pelos dias ainda guardavam um brilho intenso de quem sempre soube o que quer.

Naquela tarde - seu aniversário - já esperava a encomenda anônima: uma cesta de frutas, frutas vermelhas decorada com um bilhete, escrito:

‘Apesar de tudo… Ainda uvas, maçã’.

Saboreou suas frutas, sentiu cada nuance dos sabores, recolheu-se a seu quarto. ‘Ainda uvas…’…’seu riso…aquele sorriso…’ Nunca encontrara o sapato de cristal, muito menos o lago congelado. Mas conhecera todos os tons de vermelho que pudera. E isto bastara…pelo menos para ela. ‘Se todos soubessem…’ saltou um suspiro e adormeceu.





frutas vermelhas (II)

4 09 2007

Desceu as escadas com o coração abafado pelo tac-tac das sandálias. ‘Lembre sempre de respirar’, este era o seu mantra. Envolveu o trinco do portão com suas mãos delicadas e olhou o anel de estrelas e sois dourados que usava no anelar. ‘Tanto tempo já faz… Tudo de novo agora… Agora!’. Abriu o portão e seu sorriso irradiou como um espelho no rosto do querido de outrora.

Ele dirigia o carro como sempre. Ela permanecia sorrindo, falando de amenidades e dos dias que passaram desde então. ‘Realmente mudamos muito’ Pensavam os dois em segredo. A mão dele tocara sua coxa. Que paz ela sentiu. O mundo parou por um segundo eterno. Sua mão tocou seus cabelos enquanto dirigia. ‘Era ela, sempre fora. Mas seus olhos mudaram’ Pensou.

‘Ainda preferes uvas a maçãs?’ - perguntou baixinho no ouvido dele. Sorriu largamente - Como ela havia esquecido de seu sorriso?!

‘Ainda…’ - respondeu. Aquelas perguntas… Tão dela.

O silêncio. O sinal fechado. Ouvia seu rosto vermelho. Virou-se e o mundo transmutou prum rubi lapidado. Língua quente e beijo. O beijo… já não conseguia ouvir-se. Era o beijo… beijo deles, tão cheio e vermelho. Cerejas nos dedos, pontas dos dedos.

Verde, o sinal abriu…

(continua…)





frutas vermelhas (I)

4 09 2007

Gostava de pequenas coisas, dos detalhes de alguns momentos e da intensidade de suas nuances. Sentia cada palavra sussurrada com um arrepio crescente tal como o vapor de um banho quente num dia frio.

Checou o batom e passou um tiquinho de gloss. Suas maçãs estavam lindas - aquele era o tom certo do blush cor de cereja. Nas orelhas um brinco pequeno, em forma de cristal oscilava entre cores a cada movimento que fazia. Ela adorava brincar com a luz por entre cristais. Esta era uma de suas fantasias - pensou. ‘Um dia, quem sabe…um sapatinho de cristal num lago congelado. Seria perfeito’.

A campainha tocou. Deu uma última olhada no espelho e respirou fundo para controlar o descompasso do coração. ‘Chegou a hora, afinal’

(fim da parte I)





30 segundos (final)

27 08 2007

O centro da cidade parece funcionar como um organismo vivo. Um constante movimento ininterrupto de pessoas, carros, sons e motivos. Os sons tão característicos lembram uma sinfonia de queixas, medos e objetivos. Menos para nossos dois conhecidos naquele banco.

De leve, ele brinca com seus dedos pelo pescoço dela. Ela sorri de modo dissimulado desejando ardentemente seus lábios. O gosto do proibido a atiça, imagina-se demonstrando o que aprendeu nas aulas de dança do ventre enquanto cavalga sobre ele.

Seus dedos dançam a alguns centímetros da área de risco (nossa garota gostava de delimitar seu corpo em diversas zonas: as mais perigosas eram o “playground”, o “one way” e o “no way”). Naquele instante, não mais agüentando o limiar ambos rendem-se a seus instintos, num beijo alucinado que traduz tudo aquilo que não foi dito até então.

Entra a logo do perfume, música de fundo se encerra e o sentimento é traduzido aos nossos consumidores.

Gregório sorri para o chefe ao final da apresentação. Tudo o que deseja é que sua nova campanha seja bem-sucedida. A mensagem é clara: cheiro e sexo. Nada como uma mulher misteriosa e um homem charmoso para vender um produto. “Não pense, nem raciocine: deseje e compre.” - este era seu lema.

- Perfeito, Gregório! Parabéns! Em 30 segundos e sem diálogos, só com insinuações e olhares esta peça ficará perfeita!

- Obrigado, Boss.

- Podemos encerrar a reunião por aqui. Gregório me acompanhe para discutirmos sua promoção. Vejo em você o futuro da nossa agência.

Gregório chega às duas da manhã. Beija seu parceiro e entrega-se à merecida comemoração. “Homens e mulheres…um jogo tão mecânico, afinal”. Pensa antes de chegar ao clímax junto ao homem que ama - ou deseja? “Realmente as regras e a ordem não importam no jogo de relacionamentos.” Este é seu último pensamento sonolento ao adormecer revigorado pelo êxtase e suor.





30 segundos (parte II)

23 08 2007

Naquela tarde havia decidido fugir da rotina. Resolveu passear pelo centro histórico da cidade: praças, estátuas, árvores centenárias. Tudo aquilo a atraia. Gostava de saber um pouco da história de cada local, de como cada cultura fora lapidada. O celular - sempre ele -dera sinal de vida. “é uma boa trilha…a cara dele, afinal” - pensou. Não queria atender, iria fugir de todo e qualquer vínculo com o mundo real. Atendeu. Prontamente seu conhecido decidiu encontrar-se com ela (era desses que compromissos e trabalho podiam sempre esperar. gostava de obedecer seus impulsos.)

Escolheu aquele banco pelos corações talhados na madeira já desgastada. “será que continuaram juntos? provavelmente não”… Não sabia ao certo em que momento tornara-se tão realista. O perfume… como não reconhecer? Finalmente ele havia chegado. Gostava do seu jeito de sorrir. Era daqueles que sorria com os olhos. O jeito que passava a mão nos cabelos também era irresistível. Conservava alguns maus hábitos… esse lado sombrio claramente a seduzia. “Gosto de instigá-lo…e nesse jogo quem acaba se apaixonando sou eu”.

Ele sabia que ela era especial. Gostava de conversar longas horas, de rir um bocado e de brincar com seu desejo. Sim, pensava nela - e nas situações mais impróprias. Por culpa dela, já havia gozado numa transa de rotina com a namorada . Lembrando dos seus olhos e das suas curvas. Era errado? Quem se importava?! A namorada vivia feliz, afinal… não suspeitava de nada…então para quê aborrecimentos? Porquê aquela garota havia surgido na sua vida, daquele modo tão casual?

Tinha consciência que sentia desejo - somente isso. Precisava possuí-la, para acabar com sua obsessão diária….para tirar aquele sorriso irônico e o olhar triunfante de quem conhece alguns segredos. “Ela sabe disso. E gosta. Dá pra ver na forma que me olha. Está me fazendo de bobo…eu estou sendo um panaca, dançando no ritmo que ela conduz”

(continua…)





30 segundos

21 08 2007

Lá estava ela. Com seu olhar lânguido, de ressaca. Não, não costumava beber. Mas tinha aquela expressão de quem estava sempre muito longe, pensando em coisas sérias e suspirando… mas o suspiro lhe entregava: ela era uma criatura de volúpia, de desejo e de ideais. Entretanto, ninguém sabia ao certo o que se passava, o que ela pensava. Só sabiam que ela tinha um quê de mistério.

Acordava todo dia cedo, preocupava-se com suas obrigações até em excesso. Afinal, aprendera a ser perfeccionista e levava tudo isso à flor da pele. Ela até tentava não ‘estar nem aí pra nada’…mas sempre sorria com aquele risinho irônico só dela: sabia que não adiantar mentir pra si mesmo, afinal a mentira deixaria de ter sentido. (e o sentido das coisas, era sempre o que procurava)

Gostava de caminhar, de ver pessoas, de brincar com seus cães e gatos. No fundo, bem lá no fundo - e aquilo era segredo só dela - ela era uma criança grande e perdida. Daquelas que andam na beira da estrada observando e se maravilhando com tudo. Gostava de pensar assim “me surpreendo a cada dia, não me reconheço portanto em nada”. Pois é. Nossa personagem não tinha percebido ainda que aquilo sim, era uma mentira - e das grandes.

Certo dia, sentada na praça movimentada do centro da cidade um conhecido começou uma conversa despojada, do tipo que se tem quando não se tem nada para falar. O tempo, a política e o jeito misterioso dela de ser. Ela sabia daquilo e até gostava. Sua vaidade aflorava ao saber que era no mínimo instigante. Sentir-se então diferente era para ela uma delícia: um prazer narcísico. Imaginava-se sendo imaginada em situações fantasiosas, com detalhes preciosos.

Gostava de instigar a imaginação e a fala das pessoas. Quanto mais falassem, quanto mais revelassem sobre si era para ela um espelho daquilo que procurava compreender. Seu riso, seu olhar e até seus suspiros eram uma escada rumo aos segredos inconfessáveis, à intimidade única e assustadora de cada um. Sim, alguns a temiam. A acusavam de ser manipuladora, fria… calculista. Ninguém suspeitava que seu modo de ser era somente uma forma de proteger-se. Sim, pois vejam só: a nossa personagem temia perder o controle de seu desejo. Ao entrar em contato com o desejo que despertava, tinha que por um freio no seu próprio. Afinal, aquele sentimento, aquela sensação a levava por caminhos impublicáveis de conhecimento, de compartilhamento e de descobertas. Seu desejo por desejo era de sempre mais. Como uma eterna busca por algo que não tem fim, que cresce de maneira exponencial a cada etapa atingida.

Nossa garota não tinha idéia - e nisso seu instinto falhara - que aquele papo descontraído no centro da cidade seria a maior viagem de sua vida. Por isso não preocupou-se em armar suas barreiras e deixou-se levar…

(continua ;) )