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i n t e n s i d a d e

a sombra que me move também me ilumina

ciranda

a questão é que trabalhamos para ganhar a vida, para fazermos o que gostamos, para amar, para sermos amados, para pagarmos nossas contas, nossos médicos e nossos luxos, juntamente com as contas dos remédios e da internet e precisamos ganhar cada vez mais dinheiro porque fazemos despesas além das nossas necessidades e nos entupimos de gordura trans e alcool  e procuramos essas pilulas da felicidade para poder dormir ou relaxar e acabamos sofrendo com seus efeitos colaterais que passam com a utilização de novos remédios ou  novas distrações e mais uma porrada de coisas supérfluas e superficiais que  geram uma roda vida louca e nauseante e se não tivermos a cabeça bem centrada podemos nos perder nessa ciranda, nos enganando sem ser quem se é, sem fazer o que se quer só para aparentar aquilo que não se tem para pessoas que nem chegamos a gostar e que não nos dizem respeito.

só para impressionar.

só para ostentar.

só para esconder esse vazio feio e doloroso que guardamos aqui dentro.

loucura né?

quando era criança, curtia brincar de ciranda… a sensação de tontura, do mundo girando e aquela sensação nauseante no estômago. Já me disseram que toda brincadeira é um role-playing para a vida adulta, são pequenos ensinamentos e rituais de iniciação… pena que na vida adulta a sensação é a mesma, mas com raras risadas no final da brincadeira.

ambição (parte II)

clique aqui para ler a parte I

começou a pensar nos pedaços, lugares de junção, onde as cicatrizes tentavam contar uma história… nesse exercício de auto-observação e reconstrução, passou a lembrar de um cheiro específico: eucalipto. quente. infusão.

num rodopio o mundo girou. arremessado num mar de lembranças, viu-se correndo por entre árvores, ouvindo o doce som da voz de sua avó chamando-o para comer um recém preparado bolo de laranja.

inundado por lembranças tenras chorou. chorando começou a lembrar quem era. esvaziando-se compreendeu o porquê de tantos pedaços. as cicatrizes formavam um mapa. um caminho para quem se era. a rota das suas várias existências, construídas com o passar dos anos… um labirinto único e tão particular, sem rota de saída e escapatória. condenado a percorrer, tatear e nunca, nunca se libertar.

meditativo, sentou-se. tentou orar. concentrar-se… mas as lembranças o tragaram e inundaram… o arrependimento do que fez e o que deixou de fazer… os momentos que antecederam a pancada que o desnorteou tomou seu lugar causando um profundo desassossego…

[continua…]

ambição

[parte I]

por mais que tentasse lembrar não conseguiria.

a pancada fora suficientemente forte para desnorteá-lo… mergulhando-o numa prazerosa sensação de vinagre e água morna.

ao retornar à superfície daquilo que chamava vida (rotinas e outras coisas percebidas como suas) fitou as mãos estarrecido.

percebeu desconhecidas cicatrizes que momentos antes (minutos? dias?) não estavam lá.

boquiaberto, percebeu um rosto desconhecido a lhe espreitar. Barba… sim ele usava barba… espessa e bem desenhada que harmonizava com as linhas assimétricas do rosto.

percorreu os dedos por entre os cabelos e percebeu que os fios não estavam mais lá.

aproximou-se com cautela do espelho, estudou-se e num bocejo incrédulo, não lembrava de ser careca…

sempre quis (e começou a ter) curtos cabelos ondulados que iam tomando forma, desbotando seu rosto num belo tom cinza prateado.

“agora sim” – pensou com um sorriso.

“como posso ser feito de pedaços?”

[continua…]

timidamente

recriando um velho hábito.

a escrita foi meu grande álibi para lidar com um término de relacionamento e a criação de um filho.

hoje, aos 32 e mãe de um menino de 10, sei que a escrita não possui mais aquele poder de cura, mas talvez de compartilhamento, crescimento, conhecimento.

o menino azul encontra o sol

Era uma vez um Menino Azul que gostava muito, muito mesmo do dia. Ele corria, pulava, aprendia e dava gargalhadas contagiantes pela casa. Azul – era assim que todos o chamavam – gostava de observar o mundo de forma clara e tranquila: sem nenhum tipo de meio-termos… Por isso, os dias na vida do menino possuíam vários tons de amarelo que cheiravam a bolo de laranja e suco de tangerina.

Quando a noite se aproximava Azul saía em disparada pela casa para acender todas as luzes. Sempre que o sol sumia no horizonte e a noite tomava o que era seu por direito, o menino não se continha e gritava para a Lua:

– Eu Não gosto de você! Eu Quero a Luz do MEU SOL de volta! Quero o MEU AMIGO AMARELO!

A Lua, entretanto, nunca o respondia… continuava com a sua carinha blasé, mudando e iluminando as noites na companhia das estrelas a cintilar pelos céus.

O menino após tanto resmungar, acabava por adormecer abraçado ao lençol e à lanterna (que para ele, tinha função de espada protetora, contra os malefícios da noite)

Afinal, não podemos esquecer que Azul era ainda um menino e, como tal, não aguentava esperar uma noite inteirinha por Amarelo.

Certa feita, ao acordar, Azul sentiu os primeiros raios da manhã mais próximos do que o de costume e tal foi a sua surpresa quando notou que Amarelo estava calorosamente sentado ao seu lado.

– SOL, VOCÊ CHEGOU! – exclamou o menino com MUITA alegria.

– Sim meu amigo! Vim até aqui conversar com você!

O menino notou que a voz de amarelo transmitia a sensação de uma paz feita de algodão muito, muito confortável…

– Azul, o dia e a noite são complementos. Quando estou no céu, vocês aqui na Terra enxergam as coisas como são. Vocês brincam, aprendem, amam, brigam… Mas é durante a noite que vocês percebem melhor o que os assusta, quais são os seus medos… É na escuridão, iluminada pela amiga Prateada, que vocês, seres humanos, realmente se conhecem. Por isso a noite, assim como o dia, são tão importantes.

Sol continuou:

– Como vocês me celebrariam com tanta alegria, como fonte de vida e de luz, se vocês não conhecessem o outro lado? Que representa o que vocês não conhecem… ainda? Como sentiriam minha proteção, aconchego… e saberiam que ela é boa e necessária… Se não conhecessem a solidão e as sombras que a constituem?

– Na verdade, meu caro amigo, você só sabe o quanto sou importante… devido a noite, domínio da minha amiga Lua. Se ela não existisse, os dias seriam sempre claros, vocês só veriam o mundo como ele é. Não perceberiam como vocês sentem o mundo… Não precisariam da imaginação… muito menos de historinhas para dormir… O mundo já estaria muito bem explicado: sem sombras, sem dúvidas… É por isso que ela, a Lua é o que torna este planeta completo… Eu, com a minha luz. Ela, como reflexo do meu calor. Nós dois, cada um no seu domínio, possibilitamos que você e todos os demais possam existir.

– É por isso que na noite existem tantas estrelas no céu: Sabia que elas são pequenos sóis? Milhares de pequenos sóis a brilhar na eternidade. Minha Luz, que para você é tão essencial… compõe a noite e não passa de um pequeno e despercebido brilho para alguém em algum outro lugar.

– Azul, naquelas noites em que a Lua não aparecer no Céu… E você se sentir sozinho e com medo…

– Lembre-se que o que importa não é a luz exterior que te guia e clareia os caminhos… Mas sim… a luz que você está aprendendo a cultivar, dentro do teu coração. Sempre que aparecer algo que te assusta… amedronta… essa luz te fará tomar cuidado e observar cada pequeno passo que você dará por entre as sombras e a escuridão.

– Teus medos, azul… Serão para sempre os teus guias. Eles servem para que você se mantenha vivo e em constante aprendizado… Por isso, não os transforme em monstros.

– Agindo assim, cada dia será bem aproveitado… e no negrume da noite tu poderás descansar… sonhar… voar… realizar feitos extraordinários e acordar para colocá-los em ação!

O Sol após esta lição, tornou-se tão brilhante e intenso, que acabou por deixar Azul com uma agradável sensação de um calor amarelo dando-lhe um abraço…em cada poro, em cada fio de cabelo. Esta era a forma única que Sol conhecia de se apresentar e se despedir daqueles serzinhos que tanto adorava…

Apesar do Menino Azul não ter entendido toda a história – afinal, era apenas uma criança de quase seis anos – ele sentia que aquela voz morna e o abraço aconchegante iria acompanhá-lo sempre, por todos os dias e noites da sua vida…

(escrevi em 2009, inspirado pelo Guga, na época com 05 anos #VidaDeMãe)

Sonoridade

Meus ouvidos pousam na noite dormente como aves calmas
Há iluminações no céu se desfazendo…
O grilo é um coração pulsando no sono do espaço
E as folhas farfalham um murmúrio de coisas passadas
Devagarinho…
Em árvores longínquas pássaros sonâmbulos pipilam
E águas desconhecidas escorrem sussurros brancos na treva.
Na escuta meus olhos se fecham, meus lábios se oprimem
Tudo em mim é o instante de percepção de todas as vibrações.
Pela reta invisível os galos são vigilantes que gritam sossego
Mais forte, mais fraco, mais brando, mais longe, sumindo
Voltando, mais longe, mais brando, mais fraco, mais forte.
Batidos distantes de passos caminham no escuro sem almas
Amantes que voltam…

Pouco a pouco todos os ruídos se vão penetrando como dedos
E a noite ora.
Eu ouço a estranha ladainha
E ponho os olhos no alto, sonolento.
Um vento leve começa a descer como um sopro de bênção
Ora pro nobis…

Os primeiros perfumes ascendem da terra
Como emanações de calor de um corpo jovem.
Na treva os lírios tremem, as rosas se desfolham…
O silêncio sopra sono pelo vento
Tudo se dilata um momento e se enlanguesce
E dorme.
Eu vou me desprendendo de mansinho…

A noite dorme.

(Vinícius de Moraes)

volúvel

(texto escrito a quatro mãos com uma bic azul)

Nove da noite. Horário de Brasília. Bem longe do Planalto Central, as luzes noturnas riscavam o teto da sala. Ele estava de pé, com um imenso ponto de interrogação estampado na cara causado pela visita surpresa. Ela sorria toda vez que ele ficava daquele jeito. Apesar da distância e do tempo ele ainda gostava daquele sorriso.

Queria contar que a ideia de reencontrá-lo tornara-se um vício, a sensação de suspensão e distanciamento da rotina, da vida, só era possível ali. Imersa e encantada, deixou seu gostar transparecer além do que conscientemente desejava. Distante, enganava-se justificando o que sentia. Ali, ao seu lado, burlava uma regra pessoal do que não se deve demonstrar. Ou fazer.

Ele a encarava e sorria, percebendo que ela lutava para esconder alguma coisa. Antes de decidir que o odiava, encontravam-se com alguma frequência. Mas após tantas negações, desculpas e desencontros, decidiu que o melhor a fazer era seguir sua vida e envolver-se com alguém menos… volúvel.

Normalmente descontraído, às vezes era pego de surpresa por uma timidez sem explicação. O coração pulsava muito rápido e muito alto para deixá-lo pensar e compreender o que acabara de acontecer. Lentamente. O mundo parecia diminuir seu ritmo. Suspendendo. Dividindo-se. Disse qualquer bobagem e se virou para buscar qualquer coisa.  Ela reconheceria a desculpa mesmo que não o conhecesse tão bem.

Tê-la ali, presente, inesperada e inteira fazia com que todas as lembranças físicas outrora vividas voltassem, fazendo-o esquecer dos  convites, propostas e planos frustrados…

Ela adorava quando ele ficava tímido. Às vezes gaguejava e rapidamente procurava algo para fazer, para acalmar a respiração e controlar os pensamentos. ‘Mas um rubor não dá pra disfarçar…’ Era impossível segurar um meio-sorriso. Sentou-se no sofá, livrando-se da elegância cara de boutique que torneava e machucava seus pés.

Respirou fundo. Tomou um copo d’água. Perguntou se ela gostaria também. Ela não respondeu. Ele resolveu levar. Agora mais calmo, se dirigia de volta à sala, onde ela estava acompanhada apenas de inúmeras possibilidades. O ruído das sandálias caindo sobre o assoalho, subiu como um arrepio pelo seu corpo. Encostou-se no batente da porta e ficou em silêncio, observando-a.

Deixou escapar uma longa gargalhada: – ‘Tá olhando o quê?!’ Disse com uma voz molhada, como uma manhã na serra. Sorriu com o olhar: – “Você.”

Ela esperava qualquer coisa, menos aquilo. Sem rebuscar. Sem formular a frase. Duas sílabas. Uma palavra: Nenhuma reação. Ergueu o copo em sua mão, a oferecer-lhe. ‘Então é isso. Nada mudou’ – pensou.

Ela sorriu timidamente e ele entendeu como um sim. Aproximou-se e entregou. Ela não bebeu muito, devolvendo em seguida. A aproximação não poderia ser desfeita. O copo ficou sobre a mesa de centro e ele, com a mão a alguns centímetros acima dos seus cabelos.

Distantes, costumavam ser verborrágicos. Falavam sobre tudo. Sobre o nada. Sobre a vida e a morte. Discordavam muito e se amavam por isso. Concordavam muito e se amavam mais ainda. Mas agora, eram os dois e o silêncio.

Ela pediu para deitar-se em seu colo. O dia havia sido longo e cansativo e o que mais desejava era isso. Ela não sabia mentir e faria qualquer coisa para sentir aquela paz inexplicável quando o tempo parava e os dois se encontravam naquele lugar.

O mundo ensaiava recobrar seu movimento. Com ela em seu colo, sentia-se completo.

Queria protegê-la, confortá-la. Queria o que fosse desde que fosse com ela. Ela conversou longamente sobre tudo que havia acontecido de uma forma rápida, às vezes engolindo palavras. Gesticulava muito e atuava em cada detalhe, para dar o grau de veracidade necessário. Ele ria das suas criancices e a escutava.

Ela sabia como falar com ele. Rindo das partes ruins, enfatizando as partes boas. Era como viam a vida. Menos contido, ele arrumava qualquer desculpa para tocá-la e olhar em seus olhos, sempre fugitivos. Sua mão pousava sobre a dela que, em troca era apertada e ganhava beijos curtos.

Ele sabia que estava ultrapassando uma barreira com seus carinhos. Mas não via nenhum sinal claro de que devesse parar. Ao contrário, a cada vez que as peles se tocavam, era como se fossem feitos de cobre e sentiam a energia correr livre por sobre a pele. E a eletricidade, como todos sabem, pode ser facilmente convertida em calor.

 

 

 

segure firme o tempo

“Segure firme o tempo! Vigie-o, vele por ele, cada hora, cada minuto! Se não prestar atenção, ele escapa… Que cada momento seja sagrado. Dê a cada um clareza e significado, a cada um o peso da sua consciência, a cada um a sua verdadeira e devida realização.”

(thomas mann)

 

Ceci n’est pas une…

une…

negar naturezas
omitir desejos
debitar carências
dos desejos alheios.

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