A natureza é a mestra mais sábia para nos ensinar a lidar com o tempo. Aprendi uma dessas lições observando uma planta que minha mãe comprou para pôr na varanda do nosso “apertamento”. Ela plantou num jarro, colado à parede, e ela começou a crescer, e a enramar em uma grade na parede. Daquele galhinho mirrado brotou uma planta tão viçosa e tão impertinente que não se detém diante de nada. Cobriu toda a grade na parede, alçou-se pela varanda e se a gente deixasse, iria crescendo até o andar de cima, como se pretendesse saber o que existe lá.

Mas não é só isso que ela sabe fazer.
Vez por outra, ela se cobre de flores, que contribui para a alegria da nossa varanda. Mas tanta beleza e peraltice tem seus dias de tristeza. Vez por outra, ela é atacada por uma terrível praga de lagartas, gordas, verdes, que não fazem nada mais nada menos que devora-la inteirinha, sem deixar uma folha que seja. Essas benditas lagartas, das quais não sei o nome e nem quero saber, provavelmente depois que se fartam das folhas da minha pobre plantinha se transformam em borboletas e ficam borboleteando por aí, como se nada tivesse acontecido. E a trepadeira fica, coitadinha, reduzida a uma maçaroca de galhos secos e retorcidos, como se um imenso esqueleto vegetal tivesse sido pendurado na minha varanda não sei com qual misteriosos objetivos.

Mas Deus é grande e a Natureza sabe o que faz. Assim é que, depois de algum tempo, no tal esqueleto começam a brotar aqui e ali minúsculas gemas verdes, que vão aumentando, que vão crescendo, que vão se espalhando e rapidamente ela está lá de novo, em festa, deslumbrante na sua pujança verde e com suas delicadas flores, como cálices de ouro debruçados no chão.

É isso que eu mais gosto nessa planta! A sua disposição e a sua impertinência para invadir espaços e ocupar todos os lugares a que tem direito quando é tempo de crescer. A sua dádiva de alegria e de beleza, quando é época de florir. Finalmente, a calma, a aceitação e o espírito de oferenda com que entrega seu verde corpo à lagarta, para que dele se nutra e nele busque a energia para fabricar as asas multicoloridas de que precisará depois.

A lição que podemos aprender com esta planta não está em livros, nem em cursos, nem em aulas ou conferências. Nela vemos que é preciso morrer para renascer. Nela vemos refletidos os ciclos eternos da Vida e do Destino, e a face imutável da Duração Eterna. E penetrando nesse mistério é possível sentir, tão leve como uma asa de borboleta, o roçar da face de Deus.

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