Ela chegou ao consultório, angustiada segurando o pequeno depósito azul entre as mãos. Eram quase dez da noite e o pobre veterinário já não agüentava mais ouvir falar em doenças, dengos e manias de bichos. Mas ela sabia: se seu bichinho não fosse atendido Deus sabe o que poderia acontecer… Ele teria sim que atende-la, não importava o que ele iria achar dela – sempre fora uma garota obstinada, meio doida (segundo as más línguas) mas muito obstinada.

– Pronto, senhora. Duarte. Sua pug está bem… mas lembre-se: óculos rosa e echarpe não foram feitos para animais. Acredito que nem para humanos, mas…hehe.

– mas doutor…é que a cherrie tem que combinar comigo, com a minha roupa…com meu estilo!

– ok senhora duarte, ok. Até a próxima…

– tchau querido, e durma mais, estás com uma cara péssima! Tchauzinho.

– óculos rosa… num cachorro…onde esse mundo vai parar… final de expediente, FINALMENTE.

– psiu, moço…você é o veterinário?

– desculpe, senhorita… estou de saída. Está na hora de fechar o consultório.

– é que, minha borboleta… ela…

– borboleta? Querida, uma borboleta?! Num veterinário?! As 22 da noite?! Eu to sonhando, é isso… já estou alucinando… isso… é o cansaço…só pode ser…

– não, doutor… está aqui, minha borboleta rosa, olha ela não quer voar mais…não sei o que está acontecendo…fica dando só uns sobrevôos entre um galhinho e outro no borboletário…

– rosa? Não existem borboletas rosas que eu saiba… e a sua é violeta pelo que posso ver.

– não, é por causa do pote pintado de azul…eu que decorei…lindo o efeito não?…deixa eu abrir procê ver…afinal, ela não tem voado mesmo… opa! Goldie! Volta aqui goldie!!! GOLDIEEEE!!!

E a moça saiu pulando pelo consultório atrás da borboleta rosa, que saiu borboleteando por entre quadros de caninos felizes, peixinhos dourados e gatos entre novelos de lã. O veterinário, encantado com a cena não parava de observa-la pensando: “uma borboleta rosa… e uma dona tão bonita e maluquinha…que coisa surreal…é, devo estar sonhando”

– VOCÊ NÃO VAI ME AJUDAR?! ELA PODE ACABAR FUGINDO! NÃO POSSO VIVER SEM A MINHA GOLDIE!

– gasp..be-beem…cla-cla-claroo…

E os dois saíram saltitando pelo consultório veterinário… a moça de vez em quando permitia-se perceber o quanto aquele veterinário era encantador, a forma como ele gaguejou e o modo como ele a olhava…era de tirar o fôlego…a goldie chegou a perder a importância por alguns segundos…

– Peguei! PEGUEI!

– Viva! Viva! Parabéns senhor veterinário!!! Serei eternarmente grata!!! Ela estava a dias sem voar e foi só vê-lo que ficou a borboletear por aqui! A propósito… você não tem um borboleto? A goldie se sente tão sozinha…

– err.. gasp, bem..anh… cahan… nunca tinha percebido como borboletas são encantadoras senhorita…

– que bom, percebeu hj, senhor veterinário encantador… muito obrigada pela consulta…quanto foi?

– gostaria de ir comigo jantar?, Dona Borboleta?! Já passam das 22h, estou fechando o consultório…

– poxa, estás a fim da goldie? Pensei que estivesse rolando um clima entre nós!

– claro que está rolando um clima! Desde que você não seja uma alucinação, gostaria de saber mais sobre borboletas e donas maluquinhas…

– ahh tahh! Então ta, claro! Adoro falar sobre essas coisas!

E os dois saíram do consultório…o veterinário achando que aquela moça era realmente meio louquinha mas muito encantadora e ela achando que, realmente, veterinários são seres fofos…estressados mas fofos…

Dizem que após alguns dias ele arranjou um borboleto por insistência dela para não deixar a Goldie enciumada… é, ele não sabia também que borboletas eram bichinhos mui geniosos.