I

O dia é ontem, hoje e amanhã também
São todas as horas acontecendo agora
Há sempre um caminho a seguir
Uma página é escrita
Tudo são meras possibilidades
Os traços são firmes e imutáveis.

Um jovem vê sua doce namorada ser violentada enquanto grita pelo seu nome.
Sua decisão será morrer sob os tiros do criminoso numa tentativa vã reação. Questão de escolha?

Um homem pálido folheia páginas
Linhas se cruzam em caminhos não-percorridos
Um deles é a morte da moça e a maldição eterna do rapaz, em outro há vida para ambos, a custo da covardia que destrói o romance.
Existe também uma possibilidade ínfima em que o jovem salva a garota executa o criminoso. O abraço emocionado que se segue é ingênuo, sem desconfiar que o amor não resistiria às seqüelas do trauma e ela o abandonaria 3 meses depois. Quem poderia culpá-la? Ela só queria esquecer aquela noite.

Às vezes não podemos ver
Que em cada linha da vidaA morte, – que é irmã do destino
Pode ser um bom ponto final

A finitude da sua vida é o único caminho e um preço pequeno para eternizar o seu amor. Seu ponto final é a sua dádiva.

II
É impossível ver a face do destino
Seu capuz projeta uma sombra que inibe a visão
O que você faria se pudesse ver a face do destino?

Um xamã faz rituais que seus antepassados aprenderam com seus antepassados. Sangue, ervas, invocações, cânticos profanos. Ele quer ver a face do destino. Entorpecido, ele mergulha na escuridão, mas finda sua busca ao ver sua morte pelas mãos de colonizadores espanhóis.
O que se pode ver na face do destino, além da face de si mesmo?

III
Um escritor barato está deitado em sua cama de olhos fechados, mas vencido pela insônia. Esta noite, nem o álcool, nem os remédios foram suficientes. Pensamentos inconclusivos transitam entre um amor perdido, contas vencidas para enfim repousar na ternura de sua infância. Antes de conseguir finalmente se entregar ao irmão sonho, o escritor se pergunta se as escolhas que fez em sua vida realmente fazem sentido. Que outra vida teria se tivesse escolhido outro caminho? Ele deseja ver pelos olhos do destino.

Quão grande é inocência
De quem do próprio destino não tem consciência
O destino é cego. Quem de vós desconfiai?
Ele sempre sabe o caminho, mas nunca vê para onde vai.

IV
Parágrafo.

Depois de outro dia fraco na praça do centro da cidade, uma jovem cigana cansa da grosseria dos transeuntes. Ela que só segurava mãos para sugerir à antiga tradição, decide parar de dizer às pessoas o somente aquilo que gostam de ouvir por algumas moedas. Ela sorri louca anunciando maldições, divórcios, doenças e falências. É agredida mas continua a distribuir verdades como quem distribui sorrisos frente aos flashs. Ela sabe que será expulsa do acampamento, mas não se importa. Ao longe, ela se depara com uma uma criança que insiste à exaustão para que ela leia sua mão. Ao tocar a textura frágil e delicada da inocência, ela vê uma vida honrada e feliz, onde as dificuldades são superadas graças à força do amor. A criança agradece com um abraço sincero e ela chora. Isso não estava escrito na sua mão pela manhã.

V
Todos os caminhos pertencem ao destino
E foram traçados antes e depois de acontecerem
Para o destino, o tempo é apenas um mero detalhe.
Destino é o irmão mais velho da morte, do sonho,de delírio, desespero, destruição e desejo.
Em seu livro há um capítulo que explicaque não se trata de nenhuma coincidência
Porque deles, ele é a causa e a conseqüência

-x-

[ Obrigada pelo texto Hip! Do maravilhoso Absurdos & Abstratos ]