Todos a observavam muito atentamente. Apesar da idade avançada, gostava de colorir suas bochechas e boca. Cantarolava algumas canções antigas enquanto fazia esse pequeno ritual. Em seu quarto guardava dois mimos: uma pequena bailarina de cristal sobre um espelho e um broche em forma de morango incrustado de rubis. Não se lembrava de quem os havia dado. Já esquecera de muitas coisas, muitos rostos (tantos rostos). Mas o sorriso largo e o gosto do beijo nunca deixaram seu instinto. Sua memória era falha, mas disso lembrava: do carro, do cheiro da cidade, de seus brincos de cristais, do vermelho e do olhar de prazer que recebera.

Ao chegar do encontro tudo havia mudado. Seus olhos riscados pelo vermelho não permitiria que continuasse com aquela vida premeditada, cheia de destinos. O fogo interno que havia sentido aquela noite… que lhe trazia paz. Remoia-lhe por dentro e trazia calma. Era disso que precisava: sentir-se viva, sentir-se útil. A notícia de que havia fugido ao anoitecer pegara todos de surpresa. Não queria mais reencontrar aquele que lhe despertara. Sabia que precisava conhecer novos tons de vermelho.

Pelos corredores sussurravam entre dedos que em sua mocidade fora a cortesã mais cara da cidade. Comentavam que a sua sede de desejo a conduzira por uma vida de magoas e tristezas: surras em quartos de hotel, ameaças de morte e muita gente influente em suas mãos. Os mais fofoqueiros não sabiam como havia terminado no asilo, com suas contas pagas sempre em dia, roupas novas e muitos perfumes…Mas nenhuma visita.

Na sala com outros de sua idade, ria por dentro. Não esperava viver tanto, mas sabia que vivera mais do que muitos ali. Quem se demorava um pouco mais a olha-la percebia em algum lugar do seu sorriso algo ainda de desejo. Seus olhos já acinzentados pelos dias ainda guardavam um brilho intenso de quem sempre soube o que quer.

Naquela tarde – seu aniversário – já esperava a encomenda anônima: uma cesta de frutas, frutas vermelhas decorada com um bilhete, escrito:

‘Apesar de tudo… Ainda uvas, maçã’.

Saboreou suas frutas, sentiu cada nuance dos sabores, recolheu-se a seu quarto. ‘Ainda uvas…’…’seu riso…aquele sorriso…’ Nunca encontrara o sapato de cristal, muito menos o lago congelado. Mas conhecera todos os tons de vermelho que pudera. E isto bastara…pelo menos para ela. ‘Se todos soubessem…’ saltou um suspiro e adormeceu.

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