a máscara tornou-se pesada demais.

decidi a muito tempo que confiável é não confiar em ninguém

e sempre estar pronta para se virar sozinha.

segui o caminho do auto-didatismo, da fuga pela literatura, arte, música…para assim sentir-me completa, acolhida…mas num mundo que acabou sendo por demais racional. Apaixonei-me pela perfeição matemática, pela previsibilidade física e até, vejam só, pela linearidade da história. Vivi sentimentos e emoções não experenciados pelo mundo da literatura… senti as tragédias e dramas sempre num panorama daquele que observa, mas pouco sente. ‘o poeta é um fingidor’… meu amor platônico tantas vezes relido.

Vivi nesse mundo ideal sem contato e trocas humanas até o dia que soube que estava grávida: um filho era o atestado de que eu não era um robozinho sem sentimentos vivendo num mundo perfeitinho e previsível.

o filho tornou-me humana trazendo-me medos, dores, planos desfeitos.

o filho preparou-me para a luta: preconceitos, novos caminhos, refazer-me.

o filho mostrou-me que preciso sim de sentimento, de afeto, de cuidado.

a esfera de humanidade que o filho trouxe me fez bem [mas só percebido após ter ficado muito, muito mal]

hoje sei que o filho crescerá, seguirá seu rumo, seus caminhos.

por isso a máscara tornou-se pesada demais.

hoje percebo que preciso sim ser cuidada. percebo o quanto é solitário caminhar sozinha e conquistar. vi o quanto é gostoso compartilhar vitórias e decepções.

porém é difícil largar mão de 25 anos de história…e uma história construida de muita solitude… em geral, não gosto de receber ajuda… gosto da minha máscara de independência e perfeccionismo. não sei ainda o que fazer quando a máscara ruir de vez.

mas sei que não aguento mais seu peso.

nada mais importa, afinal. minhas mentiras, meus fantasmas, minhas amarras.

quero permitir-me o conto a cada dia.

viver o hoje

e nada mais.

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