que o mundo mudou pra mim.

A 6 anos, uma pessoa que eu amava [e não sabia que a amava tanto] faleceu… Era a minha prima N. A presença dela era algo tão natural, que quando soube da notícia fiquei assustadoramente calma,calmíssima.

No dia, pela manhã, minha mãe estava arrumando-se para sair com minha irmã e ouvimos no rádio a notícia de uma jovem que havia sofrido um acidente em frente a um famoso shopping da cidade. Ouvimos a notícia sem dar muita importância. Horas mais tarde, minha tia liga avisando-me que a N. morrera num acidente pela manhã.

Naquele momento, estava eu e meu irmão em casa. Tive que dar a notícia pra ele. Foi um momento de muita dor. Liguei para meu pai, que estava no mar. Ainda lembro

– Pai, aqui em casa está todo mundo bem

– Pq vc me ligou então?

– Pq a N. sofreu um acidente… e não resistiu.

– Estou desembarcando agora.

Meu pai estava em alto-mar, e chegou em casa antes da minha mãe.

Minha agonia era como dar esta notícia para minha mãe e irmã mais nova. Ainda não havia chorado, não me sentia no direito de expressar a dor, visto que todo mundo estava arrasado e abalado ao meu redor. Quando elas chegaram, expliquei novamente…

– Mãe, a vovó tá bem, o papai também…

– O que aconteceu?

– O acidente que a gente ouviu na rádio pela manhã…Era a N. Ela morreu.

– …

Mantive a mesma postura, engoli o choro a seco.

Doía saber que não a veria mais, que não trocaríamos segredos e planos pro futuro. A N.era uma presença constante desde que me entendia por gente… Sempre estava aqui em casa ou eu na casa dela…

Fazíamos sanduíches de ketchup [e dizíamos que eramos vampiras], jogávamos voley no sol do meio-dia no interior [pouco nos importava as marcas das mangas e dos shorts], fazíamos trilhas de bike, mergulhávamos no rio pra nadar e voltávamos felizes pro batelão, com todos os outros primos e primas pra passar a tarde jogando cartas e brincando de jogos da verdade. Ela sempre voltava das férias toda ralada, as férias não eram férias se não tivessemos um tombo dela pra relembrar e gargalhar pelos próximos seis meses…

A morte dela foi uma cisão na família. Fomos obrigados a encarar a vida. Aqueles momentos, os dias de sol e suor e risadas ficaram pra trás. A N. nos mantia unidos, fazendo que quiséssemos compartilhar aqueles momentos…com todo mundo unido e se divertindo. Depois disso, viajava muito pouco pro interior… voltei a tomar banho no rio um dia desses… 

Sei que o jeito dela me faz muita falta.

No velório, vi uma cena que marcou – e mudou – toda a minha vida.  [Costumamos brincar, dizendo que a família Valente não costuma demonstrar afeto. “Valentes não sofrem, guardam pra si”.] Vi meu tio, arrasado, sentado ao lado do caixão… Chorando…

Lembrei imediatamente de uma das muitas noites de conversa e risadas… num momento que ela ficou muito séria, comentando que não conseguia dizer pro pai que o amava… e que esse amor era tão grande… mas algo a impedia de dizer.

Comecei a chorar ali. Me doía saber que minha prima tinha morrido com aquele sentimento engasgado no peito…Me doía saber que o meu tio não havia ouvido da boca da filha aquelas palavras… Palavras tão simples, mas que tem um poder tão grande.

Não tive coragem de contar pro meu tio. Guardei pra mim.

Anos depois contei… e como doeu.

Desde aquele dia, resolvi mudar…tinha 19… também tinha vergonha de dizer pro meu pai que o amava. Que ele era importante na minha vida. Quando chegamos do velório, fui até o quarto dele e contei a história da N. Ele começou a chorar [foi a segunda e única vez que o vi chorar], dei um beijo em sua testa e falei.

Desde aquele dia, decidi ser sincera com relação aos meus sentimentos. Decidi celebrar meus amores, o meu bem-querer, contar e falar e fazer feliz os que gosto, os que me cativam. Abraçar e dar carinho, dizer um ‘eu te amo’,’gosto de você’, ‘eu te adoro’ quando sinto. 

Decidi não ser hipócrita, não guardar comigo sentimentos que são tão belos e que fazem bem. [não só a mim] 

A morte da minha prima foi um dos marcos do meu crescimento.

Viver a dor da perda, da falta que ela faz me lapidou.

Decidi naquele dia sempre falar – sem esperar nada em troca.

[será que foi naquele dia que me tornei uma pessoa intensa?

hoje percebo que foi. 😉 ]

Meu conselho, se alguém quiser:

  • fale sem medo. viva. não espere nada de ninguém. mas dê o seu melhor.
  • acredite… isso trará muito bem, trará paz… a você. 
  • este sentimento é tão bom, que contagia as pessoas ao redor.
  • é um sentimento de liberdade, pois encontramos o nosso centro…aquilo que nos equilibra…

fale, cante, dance… faça com que a sua vida valha a pena.

sem mágoas e sem palavras não ditas. sem arrependimentos.

viva e tenha um filho!

é legal ter uma pessoa pra contar as tuas histórias na hora de dormir.

[apesar de ser muito medrosa com algumas pessoas e em algumas situações eu falo. falo mesmo. causa confusão, medo, conflitos, causa também bem-estar, orgulho, cuidado…]

é por isso.

não quero que um câncer me corroa por dentro

pelo que deixei de dizer ou pelas mágoas que teimava em manter.

decidi viver uma vida livre.

é essa forma de ser que me faz feliz.

mais uma vez: através da dor aprendi.

obrigada N. pelos 19 anos que vivi com vc.

Te Amo Pra Sempre, Amiga-Irmã.

Obrigada Pela Lição de Vida

e de Morte.

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