“I have spoke with the tongue of angels
I have held the hand of a devil
It was warm in the night
I was cold as a stone
But I still havent found what Im looking for” (U2 – I Still Haven’t found what im looking for)

introspecção.

todo ano é a mesma coisa.

Quando criança minha tia me ‘obrigava’ a  ir à missa. A muito contra-gosto lá ia eu. Assistia e me incomodava com o ritual do senta, levanta, senta, ajoelha, mãos ao alto, cumprimentos, hóstias, hinos. e fofocas, muitas fofocas. Minha tia, principalmente…’fulana veio sem o marido, sicrana está com uma roupa muito decotada, etc etc’.

Como era obrigada a ir [tinha uns 8, 11 anos] comecei a prestar atenção para não ficar entediada. ficava observando o rosto dos santos, os símbolos presentes nas imagens de cristo, aqueles desenhos muito bonitos e diferentes… aguardando o único momento que respeitava e observava com curiosidade: a hóstia mergulhada no cálice com o vinho. ‘comei e bebei. esta é minha carne, este é meu sangue… façam isto em minha lembrança: eis o mistério da fé’

o mistério da fé.

carne, sangue: humanidade. comer, beber: absorver.

transcedência, renovação… absorver o espírito em nosso organismo: um canibalismo metafórico.

tenho pensado nestas questões ultimamente. questões de fé. de crença. diferentemente da ciência, a fé força-nos a crer em algo não visto, não observável. fé e esperança. não sei quem está em função de quem. se é devido à esperança que possuimos fé ou se é a fé que mantém a chama da esperança acesa.

espiritualidade.

Aos 11 anos, comecei a estudar história na escola… aliado à uma curiosidade crescente e a boas enciclopédias [lembro que passava alguns recreios mexendo na biblioteca do colégio] fui percebendo que existiam muitas culturas. lembro da atração imediata quando vi pela primeira vez a esfinge de gizé. dali não parei mais… mitologia egípcia, mitologia grega… xamanismo, xintoísmo, hinduísmo, budismo… cultura celta…runas, tarots, incenso… mantras… e livros, muitos livros… existia [e ainda existe] algo além que sempre me atrai . símbolos e ritos em lugares tão diferentes que possuem uma essencia única, que falam sobre a mesma coisa… que explicam uma jornada.

nascimento de uma criança especial -> infância com algumas demonstrações de força e unicidade -> adolescência de reclusão, de aprimoramento -> fase adulta de explosão do caráter, da personalidade: tumulto, provações, etc -> morte especial: a prova maior de sua mortalidade… geralmente com dor, sangue -> renascimento transcedental.

religião, crenças, fé… no fundo, todas falam da mesma coisa.

do modo como podemos renascer e renovarmo-nos através do sofrimento, da dor… da morte ritualistica… para o renascimento de uma nova consciência, um novo modo de encarar a vida. de olhar-se.

as religiões antigas… todas celebram a morte, o renascimento e a transmutação da natureza: época de plantar, época de colher, época de estocar, época de abrigar-se do frio, passar pela desolação da seca.

vocês percebem?

em algum momento perdemos esta ligação com os ciclos da natureza, com a essência de sermos seres naturais… levando esta vida artificial empurrada goela abaixo…com noites sem fim, com tanto consumismo, tantas necessidades artificiais… tanta desconexão. não é a toa que haja tanta solidão, tanta depressão, tanto medo. simplesmente perdemos a conexão com a nossa eternidade perpetuada nos ciclos de morte e renascimento da natureza.

por isso que a fé é motivo de chacota as vezes. por isso a desesperança assola tanto.

saiba onde sua alma está escondida. o lugar que seu espírito habita.

[que vontade de tomar um belo banho de cachoeira.]

celebre a vida.

faça com que ela valha a pena.

celebre este solsticio de verão

que você tenha um ano novo de colheita e renovação.

e sinta-se beijad@ por esta que vos escreve.