disse entre a baforada do cigarro e o gole diretamente do gargalo da vodka.

passava da meia-noite e a cidade silenciosa dormia.

sentado no chão, com as mãos perdidas no cabelo continuava o raciocínio olhando a companheira nos olhos:

– algumas putas perambulam. outros transam loucamente por obrigação, alguns poucos por amor.

– quem paga a conta ao sair? sempre alguém paga. sempre somos o corruptor ou o corrupto. de que lado queres estar, caro amigo?

– ambas opções são tentadoras. mas o corrupto sempre é um servo. sempre depende dos favores que vai prestar para poder exercer sua função. até mesmo as ilícitas… sempre são mantidas pela lei da ‘oferta e procura’…

– sim, o corruptor é quem manda…ele tem o poder em suas mãos. de acordo com seus interesses ele manipula o corrupto, ele faz com que este deseje, se desespere e venda a alma para conseguir o que quer… com certeza eu seria a corruptora.

– você já é. e sabe disso.

Sentada sobre a mesa com as pernas esticadas na cadeira, mexia muitas vezes no cabelo. devido aos goles em excesso na bebida, começava a sentir a náusea dos que pensam em excesso sobre os porquês e deveres no mundo:

– voltando… o que queres dizer com ‘sofremos do excesso de vida’?

– eu e vc. carregamos os outros nas costas. os deveres que jogam para nós, as escolhas que fazem por nós, até a briga com o fulano que não conhecemos uma hora será culpa nossa.

– hmmm…por algum motivo sempre estamos no centro do furacão… deve ser por quê no centro é onde há a calmaria.

– por isso mesmo, minha querida. por isso tentam nos puxar a todo custo.

– vamos imaginar o mundo do contrário. onde seriamos o oposto do que somos hoje…

– eu gostaria de ser um playboy letrado, de pinto pequeno e carrão na garagem. poderia passar horas tentando convencer as gurias a dormir comigo, e usaria o carrão e o dinheiro como motivo principal. mulheres podem ser muito volúveis…aposto que fariam todos os elogios e enxeriam minha bola pensando nos presentinhos e favores. só que o aborrecimento seria tanto, que dispensaria todas só pelo gosto da ilusão partida, e seria assim: um tremendo filho da puta sem sentimento.

– e você?

ela desce da mesa e senta no chão ao seu lado. dá um gole na vodka  e começa:

– bem, eu… provavelmente seria uma guria frígida, preocupada com a opinião dos outros e morrendo de medo de morrer solteirona e sozinha. então entraria em todo e qualquer proposta de relacionamento vazio, onde me agarraria ao companheiro por medo… e por medo de ser traída, o trairia para não ficar sozinha. [ou para me prevenir da traição e jogar isso na cara dele quando descobrisse] seria então um ciclo vicioso, que acabariamos separados mas morando na mesma casa, só para mantermos as convenções sociais… poderia, sei lá…virar uma viciada em compras… ou aquelas tias que vivem choramingando seus pecados para as amigas mais problemáticas ainda..

– ain, não gostei do meu mundo contrário. seria muito infeliz nele.

– realmente. será que nos encontraríamos no mundo do contrário e jantaríamos num restaurante luxuosíssimo, com vinhos caríssimos e comida fina?

– provavelmente… eu me iludiria com você, com suas propostas e você poderia arrasar meu coraçãozinho.

– talvez seríamos felizes neste mundo…

– é, talvez.

com um beijo na testa, a companheira despede-se do amigo e segue seu rumo.

ele permanece sentado, olhando-a sumir.

ambos despertam ao mesmo tempo no mundo real para outro dia.

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