palavra longa

difícil de ser pronunciada.

“deixar de pertencer a algo gradativamente…” – racionalmente verbalizo.

é um perder-se lentamente… recolhimento do corpo como um caracol ou casco de tartaruga e andar sem rumo, pelas ruas…

observar as casas e calçadas…sentir o sol queimando a nuca… queimando aquele pedaço de pele reservado aos muito próximos e sentir-se extremamente só.

passar por entre roupas penduradas nas cordas ao longo das calçadas e perguntar-se por um momento o quão absurdo é passar por entre calças, saias e camisolas penduradas sob o sol do meio dia, sem sentir vergonha ou pudor por deixar a intimidade exposta desta forma…

talvez a intimidade também seja uma questão de perspectiva…

o barulho dos passos, a poeira que sobe… o coração acelerado ao ser exigido – subitamente – a bombear mais sangue, ruborizando a face ante o olhar da senhora com um centenário sofrimento.

despertencimento por localizar-se num cenário estranho à própria essência.

levo-me por entre ideais e valores. deixo que eles definam e me reconstruam.

dostoiévski me relembra: ‘como pode respeitar-se , por pouco que seja, um homem que se conhece a si mesmo?’ …

como não rir desse passo-a-passo…do passado… do cheiro de pão a me inundar o sentido… nesse caminho de regresso.

tomo um banho demorado.

escrevo estas palavras, sem buscar um sentido.

sentidos são previsíveis e direcionados… [e como me aborrece as pessoas com sentido… aquelas que teimam em explicar tudo definitivamente e não sabem sequer onde esqueceram a carteira ou relógio]

meus sentidos me inundam, definitivamente já me basta estes cinco, seis…  que a natureza me dotou.

só por hoje, não sinto.

absorvo.