escrevi este trabalho…gostaria de compartilhar com vocês 😉 

Fé…

Desde muito nova soube que existiam mais coisas além do céu e da terra. Era um sentimento tão profundo, que chegava a doer. Doía cada vez mais pelas respostas que buscava – e quando as encontrava não me satisfaziam. Busquei então o estudo: através da leitura conheci novas culturas e explicações e sentidos para aquele sentimento que me arrebatava e me tornava pequena diante uma noite estrelada, diante da imensidão do oceano ou do simples e fascinante brilho de uma pedra.

Busquei conhecimento através da literatura, dos autores e poetas que passei a amar… Buscando alguma explicação, algo que justificasse essa dor que me impelia a buscar o desconhecido cada vez mais. Este ‘conhecer sem saber’… Que não sabia explicar.

Achei – através da literatura, visões pessoais de quem escrevia: visões que às vezes se aproximavam da minha experiência, mas que não respondiam minhas dúvidas… Quando a literatura mostrou-se insuficiente, busquei a arte: pintura, desenhos, música… Aquelas formas de expressão elevadas do espírito, manifestações que nos traduz, liberta… Através da arte visualizei alguns sentimentos ocultos… Símbolos, que interpretamos e reconhecemos internamente: algo que nos dá um sentido, que explique e talvez amenize a dor interna.

Mas percebi que aquilo também não me preenchia.

Procurei vivenciar o amor sobre todas as formas: emoções e alegrias, tristezas e mágoas – dores. Mas dores diferentes daquela que me acompanha desde o meu nascimento. Através do amor, conheci a desilusão que pode existir a dois. Ali encontrei minha primeira morte. Desci às profundezas da emoção e permiti-me vivê-la intensamente: remoendo mágoas no fundo do poço emocional. Descobri após cansar de remoer, uma pequena chama que descreverei como auto-piedade. Naquele momento, percebi que aquela antiga dor havia se transmutado numa serenidade e confiança que não conhecia.

Tornei-me mãe: a serenidade e confiança transmutaram-se em medo e dúvidas com o futuro. Mais uma vez, morri e desci ao inferno que lapidara para mim.

Num certo dia, ao dar mamadeira ao meu filho com dois meses [estava passando por uma depressão pós-parto e não conseguia olhá-lo], ele segurou forte o meu polegar e fixou seus olhos nos meus. Naquele momento senti toda a intensidade da dor que me acompanhava por completo. Estando ali, olhos nos olhos, compreendi o sentido. Compreendi que a doação é um caminho necessário para a paz interior. Os olhos do meu bebê me obrigaram a encarar esta necessidade: a necessidade de doação. Que culpa tinha – afinal, aquela criança do meu inferno mental?

Naquele momento compreendi que a dor que acompanhava era a falta de respostas para a pergunta errada. A pergunta não era: ‘fé para quê? Para qual fim?’, mas sim: ‘como posso – através da minha confiança, tornar-me uma pessoa melhor?’

Percebi que todo ser humano nasce com fé: cremos e esperamos que algo dê certo ou errado – e isto é fé.

Compreendi que sentir fé é confiar, cofiar em algo maior que desconhecemos. Doar-se e entregar-se sem medo, movidos por este sentimento que basta por si só. Naquele momento, senti fé. Fé naquele serzinho que segurava nos braços, fé pela noite que viria… fé pelo meu renascimento.

Ter fé é doar-se de corpo e espírito para a vida. Lapidando-se como pessoa, buscando o amadurecimento para tornar-se uma pessoa melhor e mais consciente da dor do próximo e auxiliá-la a descobrir onde reside aquela dor interna que carregamos.

Fé é confiar.  E é bela por isso. Ter fé nos proporciona a capacidade de confiar em si para confiar em algo maior que também está presente em todas as pessoas, no mundo inteiro.

Este algo que percebemos em seus pequenos detalhes, mas nunca em sua totalidade [pois o todo é grandioso demais para perspectiva e mortalidade humana].

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