“Atire a primeira pedra quem nunca pecou”

Pode não parecer, mas eu sou uma pessoa um tantinho explosiva. Meu pai – leitor assíduo do blog – que o diga… É a velha questão do ‘não pise no meu calo que não piso no teu’… uma atitude e jeito de ser na defensiva…observando o comportamento do outro e sabendo como – e de que modo agir, para atingir o objetivo: vingança. Eis que de alguns anos para cá, aos poucos tenho mudado o meu jeito de ser… “A vida ensina”, e sabe… é verdade. Apesar de entrar ainda em alguns conflitos, passei a dar a outra face com maior frequência, pois o fardo da culpa e arrependimento é pesado… decidi carregar só a minha cota – e olhe lá. Lendo um artigo na net, me deparo com um termo novo: metanóia. Parei para ler, estudar… e quanto mais lia a mensagem ficava cada vez mais clara. Metanóia é uma mudança interior que ocorre no processo de arrependimento, proporcionando uma mudança exterior, seria – em termos espiritualistas – uma transformação profunda na mente e no coração.

Aí parei pra pensar… Nos momentos que já me arrependi de ter feito, dito algo. Compreendi que o mal-estar que causei às pessoas que amei/amo veio do arrependimento por alguma atitude que tomei. Arrepender-se é reconhecer quando algo realmente nos causa profundo mal-estar. Não aquele mal-estar momentâneo, causado pelo consumo em excesso de determinada comida, ou bebida, mas algo mais profundo: um mal-estar de ordem espiritual. É incomodar-se profundamente com uma postura sua que antes passava despercebida, mas, por algum motivo, passou a ser vergonhosa indigna. É sentir-se sujo, e envergonhar-se deste sentimento a respeito de si. É o momento que percebemos claramente a linha divisória que separa o nosso bem-estar, o nosso narcisismo e egocentrismo do bem-estar dos que nos são caros, das pessoas que estão ao nosso redor – seja na vida em comunidade, em família, entre amigos, etc.

É um sentimento de vergonha tão profundo que nos traz lágrimas aos olhos, quando o peito não suporta mais ficar tão pequeno. E neste momento, quando choramos, o peito se alivia… As lágrimas clarificam nossos sentidos e reações após serem derramadas. Parece que ganhamos um novo ar – após passarmos por esta mudança de perspectiva frente à vida: saímos de um estado de angústia ao sentir o peito pesado e a cabeça cabisbaixa para um de clarificação e compreensão do todo, do que há além do que a visão alcança.

É um senso profundo de respeito e elucidação, de compreensão e aceitação das engrenagens da vida e, mais além: é o processo de aceitação dos caminhos percorridos e de todas as pedras atiradas e recebidas. Quando compreendemos as engrenagens que regiam nossas atitudes passadas que nos envergonha, as atitudes pelas quais nos arrependemos profundamente, é que iniciamos uma transformação interior – percebida somente após trilharmos um longo caminho. São aqueles momentos onde nos encontramos profundamente perdidos e sozinhos, onde não sabemos que caminho escolher, pois todas as opções parecem duras e difíceis demais… É aquele momento onde perdemos tudo o que possuímos como ‘nosso’, nos encontrando desnudos e desprotegidos, pois todas as máscaras e desculpas caíram e temos que encarar a nossa crua realidade: somos seres de carne, ossos, sentimentos e sangue. É naquele momento que nos entregamos ao profundo sentimento de oração interior, quando pesamos na balança a nossa consciência e arrependemo-nos sinceramente do que fizemos. É aí que a transformação se inicia.

Creio que pecado é reconhecer o que nos causa mal-estar e mesmo assim realiza-lo. Somos pecadores a partir do momento que conscientemente nos machucamos gratuitamente por não perseverarmos no combate à tentação. Realmente é muito difícil combate-los. Afinal geralmente vivemos nossa vida através da satisfação dos prazeres de curto-prazo: o torpor advindo da luxuria, o egocentrismo provindo da vaidade, a imobilidade reconfortante na preguiça, a satisfação dos nossos anseios e necessidades através da gula, a nossa prisão às falsas auto-imagens no orgulho, a explosão imediatista e muitas vezes irremediável da ira e o imperceptível – apesar de mortal veneno da inveja.

Somente através de um auto-exercício diário de compreensão, ponderação e auto-conhecimento é que podemos desvendar onde nossa essência anda escondida, e de que modo podemos transformarmo-nos em seres humanos exercendo ao máximo a nossa potencialidade espiritual neste planeta: atingir a santidade ao compreendermos a riqueza do poder que o arrependimento nos proporciona e a beleza que há ao tomarmos novas direções em nossas vidas… Nesta luta diária, buscando a compreensão, piedade e compaixão – primeiramente por nós, para depois podermos ajudar outra pessoa. Neste caminho que nos levará a uma vida transbordante de luz.

[a quem você pedirá perdão hoje?😉 ]