A palavra alma evoca um poder invisível:

1. ser distinto,
2. parte de um ser vivente ou simples fenômeno vital;
3. material ou imaterial, mortal ou imortal;
4. princípio de vida, de organização, de ação;
5. salvo fugazes aparições, sempre invisível, manifestando-se somente através de seus atos.

Por seu poder misterioso, sugere uma força supranatural, um espírito, um centro de energia. Afirmar a existência de uma alma sempre provoca reações opostas.

Na opinião da ciência ou da filosofia esta existência é diferentemente concebida, porém admitida.

Essas duas atitudes determinarão diferenças essenciais na antropologia, na ética e na religião. Mas, evocadora de invisível poder e provocadora de um saber, de uma crença ou rejeição, a alma possui, nessa dupla qualidade, pelo menos o valor simbólico, tanto pelas palavras e gestos q a exprimem como pelas imagens que a representam. Subentende toda uma cadeia de simbolos:

O principal desses símbolos é o sopro, com todos os seus derivados. A própria etimologia da palavra relaciona-se ao sopro e ao ar, enquanto princípio vital.

  • Entre os Egípcios, a íbis-sagrada [pássaro com cabeça de mulher] representa o princípio imortal [Akh], de natureza celeste, brilhante e poderosa ao mesmo tempo, que parece comum aos homens e aos deuses; a ave com cabeça humana corresponde ao espírito próprio de cada indivíduo [ba], que pode vagar após a morte pelos lugares antes frequentados pelo defunto. O Ba, portanto é um princípio espiritual que pode aparecer independentemente de seu suporte físico, agir por sua própria conta, representar de certo modo seu dono…alma itinerante de um ser vivo, capaz de ação material.
  • Na China a alma é dupla, composta de dois princípios: Kuei e Shen. Kuei é a alma mais pesada. Aquela que os desejos do vivente fazem pensar; permanece perto do túmulo e assombra os lugares familiares… Shen é o gênio, a parcela divina presente no ser humano. No século IV antes da nossa era, esse dualismo popular veio reunir-se ao grande dualismo da criação oficial, fundada na oposição dos dois princípios, o yin terrestre e feminino e o yang masculino e celeste.
  • Entregar a alma é morrer. Animar, dar uma alma a, é fazer viver. Segundo o pensamento Judaico, a alma está dividida em duas tendências: uma superior [celeste] e outra inferior [terrestre]. O pensamento judaico considera também o princípio masculino [nefesh] e o princípio feminino [chajah]; um e outro são chamados a transformar-se, a fim de poder tornar-se um único princípio espiritual, rugh, o sopro, o espírito. Este último está ligado à imagem divina e cósmica de nuvem densa, de nevoeiro…
  • De um ponto de vista analítico [ou vocês achavam que eu não iria tocar nesse aspecto?] , tendo mostrado que a alma é um conceito de múltiplas interpretações, Jung dirá que ela corresponde a um estado psicológico que deve gozar de uma certa independência nos limites da consciência… a alma não coincide com a totalidade das funções psíquicas. Designa também uma relação com o inconsciente e também uma personificação dos conteúdos inconscientes. As concepções históricas e etnológicas da alma mostram claramente que ela é, antes de mais nada, um conteúdo relativo ao sujeito, mas também ao mundo dos espíritos, o inconsciente. E é por isso que a alma tem em si algo de terreno e sobrenatural. Terrestre, por ser posta em contato com a imagem maternal de natureza, de terra; celeste porque o inconsciente almeja sempre ardentemente a luz da consciência. Desse modo, a alma – ou anima -exerce uma função mediadora entre o ego e o self, sendo que este último constitui o núcleo da psique do ser.

A Anima, de acordo com Jung, comporta 4 estágios de desenvolvimento:

1. o primeiro simbolizado por Eva, coloca-se no plano instintivo e biológico.
2. O segundo, mais elevado, conserva seus elementos sexuais.
3. O terceiro é representado pela Virgem Maria, em quem o amor alcança um nível totalmente espiritual.
4. O quarto é designado pela Sabedoria.

Mas qual o significado desses 4 estágios?

  • A Eva terrena, considerada enquanto elemento feminino, progride em direção a uma espiritualização. Se admitimos que tudo o que é terreno tem sua correspondência no celeste, a Virgem Maria deve ser considerada como a face terrena da Sophia (grego: sabedoria, ciência) que, por sua vez, é celeste.

Assim, vemos desde logo que a alma individual deve obrigatoriamente percorrer essas 4 etapas. Uma outra definição dada por Jung e que é de suma importância: a anima.

  • Na tradição das artes mágicas, o homem pode vender sua alma ao diabo para obter em troca aquilo que ele desejar nesta terra. Sob múltiplas formas, é o pacto de Fausto com Mefistófeles [Fausto de Goethe – ótimo livro]. Uma lenda alemã acrescenta que o homem que tiver vendido sua alma já não possui mais sombra.

Será isso um eco das crenças nas duas almas, no duplo dos antigos egípicios? Não será , mais provavelmente, uma forma de simbolizar o fato do homem Ter perdido toda a existência própria?

A sombra seria, nesse caso, o símbolo material da alma assim abandonada, que pertence doravante ao mundo das trevas e que já não pode mais se manifestar sob o sol. Ausência de sombra: sinal de que já não há nem luz nem consistência.

O mais interessante de tudo é que, no início do século passado, um médico americano metido a esquisitão, o Dr. Duncan Macdougall pesou 6 pessoas antes e depois de morrerem…ele constatou que existia uma perda de peso, algo em torno de 21g [o mesmo peso de duas caixas de fósforos]. Ele verificou que o corpo morto pesava algumas gramas a menos do que o corpo enquanto vivo. Ele constatou que a perda variava, mas ficou entre 14 a 28 g…

O experimento não tem fundo científico, mas no dia de sua morte o NY Times publicou seu epitáfio com o seguinte título: “ele pesou a alma humana”

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