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De todas as imagens do tarot, eis a mais misteriosa… a mais fascinante e, por isso mesmo a mais inquietante. Diferente dos outros arcanos maiores, numerados de Um [O Mago] a Vinte e Um [O Mundo], o Louco não tem um número. Ele situa-se, portanto, fora da ordem, da lógica arquetípica: ou seja, fora da cidade dos homens, fora dos muros.

Ele caminha apoiado em um bastão cor de ouro, na cabeça um chapéu da mesma cor, parecido com um cesto que simboliza a loucura [podemos observar a lemniscata – símbolo do infinito, uma asa do caducéu de hermes e uma esfera que pode sugerir um sol nascente]; suas calças estão rasgadas e, sem que ele pareça se dar conta, um cachorro, atrás dele, agarra o tecido, deixando aparecer a carne nua.

é um louco!“, concluirá o observador, abrigado por trás dos muros da cidade.

é um mestre…“, murmurará o filósofo hermético, notando que o bastão, em cuja ponta ele carrega uma trouxa, sobre o ombro é branco: a cor do segredo, cor da iniciação, e que seus pés calçados de vermelho se apoiam num chão bem real, e não sobre um suporte imaginário.

Sua sacola está vazia, mas é cor de rosa, como sua coxa e como o cachorro que tenta agarrá-lo: simbolo da natureza animal e de posses, com as quais não se preocupa. Por outro lado… o ouro do conhecimento e das verdades transcedentais é a cor do bastão sobre o qual ele se apóia, da terra sobre a qual ele caminha… dos seus ombros e dos seus cabelos e, acima de tudo… ele caminha, isso é o importante, pois ele não vaga cegamente, ele avança.

O louco… o coringa… representa o limite da palavra, a presença esperada que se transforma em ausência, o saber último que se torna ignorância: a cultura… aquilo que nos resta quando tudo mais é esquecido…

O louco, em suma não é o nada, não é o vazio… ele é a consciência do ser e a consciência do mundo: uma força sem amarras… que segue, sem um destino aparente… sem uma causa. Mas segue…

O louco é um agente do caos… sua figura nos causa perplexidade: sua aparente loucura e o descaso com a necessidade material elicia em nós curiosidade, simpatia… medo… Medo pois nos obriga olhar e encarar a raiz das nossas necessidades: ‘para quê preciso de tudo isso se… amanhã posso morrer? qual é  o sentido disso afinal?

O louco, o joker… nos força a imaginar uma vida fora dos muros da cidade… uma vida sem leis, sem regras, sem amarras…  nos mostra que… A única coisa que verdadeiramente nos pertence [o conhecimento, a cultura] não pode ser roubado… É somente isso que importa os valores que vivenciamos… O joker nos mostra que o apego aos bens materiais e às adversidades da vida são amarras que limitam a liberdade… e isto nos impede de seguir em frente… avançar.

Quando assisti ao Cavaleiro das Trevas, fiquei intrigada com a interpretação do Heath Ledger… Na minha visão, ele conseguiu atualizar este arcano do tarotconseguiu dar uma nova roupagem ao arquétipo do louco: o ser que desafia as regras dos homens e da cidade, que segue e caminha sem prever aonde vai chegar…

Vivemos num mundo comandado pelo poderio político e econômico… Neste modelo, alguém que anda fora dos muros, à margen…marginalizado e que perturba a ordem é  considerado um anarquista.

O joker de ledger É aquele louco que desafia esta ordem, fazendo piada com o que nos dá uma sensação de segurança e controle [ele só quer se divertir… ha hi ho ha… só que… se divertindo, nos tira do eixo…].

Ele – o palhaço louco, psicótico, assustador e… cativante – nos vira do avesso… quando nos questiona na telona:

w h y  .  s o  .  s e r i o u s . . . ?

Logo ele… fadado ao sorriso cicatrizado no rosto… Sorriso maquiado que mascara toda e qualquer explicação para sua loucura… Ele cospe em nossa direção, ao deixar claro que não há necessidade de causas ou explicações… Ele é  um ‘cachorro louco que corre atrás do carro… se o carror parar, eu não saberia o que fazer. ] Um agente do caos…caótico… multifacetado, multidirecionado…explosivo… i n t e n s o… louco.

A nova roupagem que o ator [ator… tora…taro…] deu ao arqui-vilão.. ajudou-me a perceber e elevar este arcano, deixando de lado a imagem arquetípica do Louco do Século Quatorze [a figura do homem que segue o que acredita, sem se importar com o que irão pensar…] Para o Louco do Século Vinte e Um: Esta nova leitura traduz o perigo em seguir a própria vontade numa sociedade doente… Nos é sugerido o que acontece àqueles que não se importam em seguir regras e expectativas… Obriga-nos a questionar até que ponto nos manteríamos civilizados e cheios de bons-modos…visto que somos frutos de um sistema a muito apodrecido.

O Coringa do Ledger afirma: ‘vc pode jogar tudo pra cima, seu covarde! você pode ter seu dia de fúria e mostrar a todos o quanto cada um está presos pelas suas falsas vidas, abrigados e protegidos por esta falsa calma e cortesia… no fundo, todos gostariam de ser, como eu…você sente isso… voce deseja ser como eu.

O ator inspirou-se na angustiante Graphic Novel “Batman: A Piada Mortal“, roteiro de Alan Moore [sempre ele, ai ai], para construir a figura desconcertante que ganhou vida nas salas de projeção: Esta nova roupagem do coringa é o tapa na cara, que nos força a pensar, nos mantendo reféns da angustiante análise:

Vale a pena matar um inocente? vale a pena executar um bandido… ?

Minha escolha tem qual valor? …

O coringa de Ledger vai mais além… Ele se diverte provocando histeria e loucura na cidade inteira… Com seu amor por pólvora, gasolina e fogo… vemos imagens surpreendentes, cheias de pirotecnia… uma piramide de dólares sendo queimada… e um questionamento filosófico do coringa ao mafioso: ‘o problema com vocês, é que só pensam no dinheiro… ‘ . Com o desenrolar da trama vemos despertar a besta adormecida que jaz dentro de todos nós… Basta a pequena incisão certeira… e devastadora… no âmago dos nossos instintos e vontades… por isso:

W H Y S O S E R I O U S ?

O Joker do Alan Moore e do Ledger nos angustia, pois nos coloca em xeque-mate: acabamos ao final da película percebendo que não somos tão civilizados quanto acreditamos…

Ainda posso sentir o sussurro… aliado à risada despadronizada, insana:

‘é só uma questão de oportunidade, tái… aliado à uma intensa pressão psicológica… qualquer um pode ser o vilão… um assassino… o lobo… o louco que desafia o sistema… o caos… é uma questão de acreditar em uma verdade… ou em várias verdades… isto realmente importa?… esta verdade define quem você é? … você mataria um bandido para salvar a própria pele?… você enlouqueceria se tivesse um dia ruim? … em que você acredita?

em quê

você

acredita?

[próxima semana – ou quando der – escrevo sobre o Harvey Dent e a minha associação com O Mago, arcano do Tarot… quando – na verdade – ele representa a Lâmina dos Enamorados]