Dez anos de dedicação integral se fizeram necessários para que ele finalmente terminasse de escrever a sua carta.

Após o ponto final, por alguns meses calculou o exato meio do papel, para só então dobrá-lo.

Semanas foram esbanjadas, preparando o envelope; namorou o de cor, tamanho e textura ideal.

Outros dias a fio, e enfim decidiu pelo selo que lhe parecia mais bonito.

Horas preparando-se para lambê-lo, uma porção de minutos procurando sua posição perfeita no envelope, e por mais um ano inteiro assistiu secar-se por completo a cola que mantinha fixo o selo em seu lugar.

Durante esse período, todo dia cuidadosamente se aproximou e desenhou, letra a letra, o endereço de sua amada.

Ao fim, em um instante deu início a sua viagem

Para chegar até o endereço almejado e entregar sua carta, percorreu novos dez anos; de bicicleta, navio, avião, balão, motocicleta, automóvel, carona, roubou veículos, andou a pé, sobre patins, nadou, subiu ladeiras e vestiu botas.

Finalmente plantado diante da porta, ensaiou por seis meses o momento certo para empurrar a ponta de seu dedo contra a campanhia da casa de sua amada, que abriu no exato segundo seguinte, dizendo que estava esperando por ele.

Entregou o envelope a ela, que, num rompante violeta, deu-lhe as costas e espere aí que eu também tenho uma carta pra você.

Sem demora retornou com o mesmo sorriso no rosto.

Ansiosamente, ofereceu-lhe em troca o seu envelope, impecável, e mais uma década de viagem se derramou para que ele enfim regressasse até sua casa.

Abriu a porta, trôpego, e de uma vez só leu em voz alta a carta recebida, para depois se desfazer em cores, linhas, música, cheiros e sentir saudades da mulher da sua vida.

[texto de vitor paiva, adaptado à uma realidade paralela pelo meu ]