Ninguém escapa ao Destino

Oculto ou aparente,

De face serena ou inclemente …

. . . . . . . [Das “Mil e uma noites”]

.

Certa vez – há muitos anos – quando de volta de Bagdá, aonde eu fora vender uma grande partida de peles e tapetes, encontrei num caravançará [1] perto de Damasco velho árabe de Hedjaz que me chamou de certo modo a atenção. Falava agitado com os mercadores e peregrinos, gesticulando e praguejando sem cessar.  Fumava constantemente uma mistura forte de fumo e haxixe e quando ouvia de um dos companheiros uma censura qualquer, exclamava, apertando entre as mãos o turbante esfarrapado:

Mac Allah! [2], ó muçulmanos! Eu já fui poderoso! Eu já tive o Destino nesta mão!

É um pobre diabo – diziam. – Não regula bem do miolo! Allah que o proteja!

Eu, porém – confesso, – sentia irresistível atração pelo desconhecido do turbante esfarrapado. Procurei aproximar-me dele discretamente, falei-lhe várias vezes com brandura e ao fim de algumas horas já lhe havia captado inteiramente a confiança.

Os homens da caravana me tomam por doido – ele me disse uma noite quando cavaqueamos a sós. – Não querem acreditar que já tive nas mãos o destino da humanidade inteira. Sim, senhor: o destino do gênero humano!

Esbugalhei os olhos assombrado.

Aquela afirmação insistente de que havia sido senhor do Destino era característica do seu pobre estado de demência.

O desconhecido, porém, que parecia não perceber os meus sustos e desconfianças, continuou:

Segundo ensina o Alcorão – o livro de Allah – a vida de todos nós está escrita – Maktub! [3] – no grande “Livro do Destino”. Cada homem tem lá a sua página com tudo o que de bom ou de mau lhe vai acontecer. Todos os fatos que ocorrem na terra, desde o cair de uma folha seca até à morte de um califa, estão escritos – estão fatalmente escritos – no Livro do Destino!

E sem esperar que eu o interrogasse narrou-me o seguinte:

Em viagem pelo deserto sonhei, certa vez, que havia salvo um velho feiticeiro que ia ser enforcado. Esse feiticeiro, em sinal de gratidão, deu-me um talismã raríssimo que possuía. E essa pedra maravilhosa permitia a entrada livre na famosa Gruta da Fatalidade, onde se acha – pela vontade de Allah – o Livro do Destino. Viajei dois anos a fim de chegar à gruta encantada. Um djim [4] – gênio bondoso que estava de sentinela à porta – deixou-me entrar, avisando-me, porém, de que só poderia permanecer na gruta por espaço de poucos minutos. Era minha intenção alterar o que estava escrito na página da minha vida e fazer de mim um homem rico e feliz. Bastava acrescentar com a pena que eu já levava: “Terá muito dinheiro!”. Lembrei-me, porém, dos meus inimigos. Poderia naquele momento fazer grande mal a todos eles.

Movido pela idéia única do ódio e da vingança, abri a página de Ali Ben-Homed, o mercador. Li o que ia acontecer a esse meu rival! E acrescentei em baixo, sem hesitar, cheio de rancor: – “Morrerá pobre, sofrendo os maiores tormentos!” – Na página de Zalfah-el-Abari escrevi, impiedoso, alterando-lhe a vida inteira: “Perderá todos os haveres. Ficará cego e morrerá de fome e sede no deserto!” – E assim, sem piedade, arrasei, feri, retalhei a todos os meus desafetos!

E na tua vida? – indaguei, curioso – Que fizeste, ó muçulmano, na página em que estava escrita a tua própria existência?

Ah, meu amigo! – prosseguiu o desconhecido cheio de mágoa. – Nada fiz em meu favor. Preocupado em fazer o mal aos outros, esqueci-me de fazer o bem a mim mesmo. Agi como um miserável! Semeei largamente o infortúnio e a dor e não colhi a menor parcela de felicidade. Quando me lembrei de mim, quando pensei em tornar feliz a minha vida, estava terminado o meu tempo. Sem que eu esperasse surgiu-me pela frente um efrite – gênio feroz, que me agarrou fortemente e, depois de arrancar-me das mãos o talismã, me atirou fora da gruta. Caí entre as pedras e com a violência do choque perdi os sentidos. Quando recuperei a razão achei-me ferido e faminto, muito longe da gruta, junto a pequeno oásis do deserto de Omã. Sem o talismã precioso nunca mais pude descobrir o tortuoso caminho da Gruta do Destino.

E concluiu, entre suspiros, numa atitude de profundo e irremediável desalento:

Perdi a única oportunidade que tive de ser rico e feliz!

Seria verdadeira essa estranha aventura?

Até hoje ignoro. O certo é que o triste caso do velho árabe de Hedjaz encerrava grande e precioso ensinamento. Quantos homens há no mundo que, preocupados em levar o mal a seus semelhantes, se esquecem do bem que poderiam fazer a si próprios…

[Malba Tahan]

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[1] Caravançará – Refúgio construído pelo governo ou por pessoas piedosas à beira do caminho para servir de abrigo aos peregrinos. Espécie de “rancho” de grandes dimensões em que se acolhiam as caravanas.

[2] Mac Allah – Exclamação usual entre os árabes. “Por Deus” ou ainda: “Exaltado seja Allah!”.

[3] Maktub! (estava escrito!) – Particípio passado do verbo catab (escrever). Expressão que bem traduz o fatalismo muçulmano.

[4] Djins e efrites são gênios sobrenaturais cuja existência os árabes admitiam. Essa crendice só subsiste nas classes incultas. Os djins são benfazejos ao passo que os efrites se divertem com o mal que podem fazer às criaturas.

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