. a guerra [uma crônica]

A esposa soluçou no telefone:

- Vem depressa! Chispando! Vem!…

Não perdeu o tempo.

Berrou para o sócio: “Agüenta a mão, que eu não sei se volto.” Acabou de enfiar o paletó no elevador. E quebrava a cabeça, em conjecturas infinitas: “Que será?” Não quisera perguntar a Flávia com medo de uma notícia trágica. Já no táxi, calculava: “Algum bode!” Mas a hipótese mais persuasiva era de uma morte na família da mulher.

O sogro sofria do coração e não era nada improvável que tivesse sobrevindo, afinal, o colapso prometido pelo médico. Imaginou a morte do velho. E a verdade é que não conseguiu evitar um sentimento de satisfação envergonhada e cruel. Desceu na porta de casa tão atribulado que deu ao chofer uma nota de duzentos cruzeiros e nem se lembrou do troco. Invadiu aquela casa grande na Tijuca, onde morava com a mulher, os sogros, três cunhadas casadas e uma solteira.

Desde logo, percebeu que não havia hipótese de morte. A inexistência de qualquer alarido feminino, numa casa de tantas mulheres era sintomática. Descontente, fez o comentário interior: “Ora, bolas!”

Foi encontrar, porém, a esposa no quarto, num desses prantos indescritíveis. Sentou-se, a seu lado, tomou entre as suas as mãos da mulher: “Mas que foi? Que foi?”

Primeiro ela se assoou; e, fungando muito, largou a bomba:

- Meu filho, nós temos um tarado, aqui, em casa!

Maneco empalideceu. Por um momento, teve a suspeita de que o “tarado” fosse ele mesmo, Maneco. Chegou a pensar: “Bonito! Descobriu alguma bandalheira minha!”

Engoliu em seco, balbuciou: “Mas quem?” E ela:

- O Bezerra!…

O “tarado” Quando percebeu que não estava em causa, ganhou alma nova. Uma súbita euforia o dominou; e preparou-se, ávido, para ouvir o resto. O Bezerra era casado com Rute, a irmã mais velha de Flávia. Maneco quis saber: “Por que tarado?”

Flávia explodiu:

- Esse miserável não soube respeitar nem este teto! – E apontava realmente para o teto. – Sabe o que ele fez? Faz uma idéia? – baixou a voz; – Aqui, dentro de casa, quase nas barbas da esposa, deu em cima de uma cunhada, com o maior caradurismo do mundo. Vê se te agrada!

Assombrado, perguntou: “Que cunhada?”

Pensava na própria mulher. E só descansou quando Flávia disse o nome, num sopro de horror:

- Sandra, veja você! Sandra! Escolheu, a dedo, a caçula, uma menina de 17 anos, que nós consideramos como filha! É um cachorro muito grande!…

- Papagaio! – gemeu o marido, no maior espanto de sua vida; ergueu-se: – Sabe que eu estou com a minha cara no chão? Besta?…

Agora ela o interpelava: “É ou não é um tarado?” Então, com as duas mãos enfiadas nos bolsos, andando de um lado para o outro, Maneco arriscou algumas ponderações: “Olha, meu anjo, eu sempre te disse, não disse? Que cunhada não deve ter muita intimidade com cunhado?”

E insistiu:

- Claro! Evidente! Onde já se viu? Porque, vamos e venhamos, o que é uma cunhada? Não é a mesma coisa que uma irmã. E ninguém é de ferro, minha filha, ninguém é de ferro! Tua irmã menor, por exemplo. Quando ela comprou aquele maiô amarelo, de lastex ou coisa que o valha, deu uma exibição, aqui, dentro, para os cunhados. Isso está certo?…

Flávia ergueu-se, apavorada:

- Mas vem cá. Você está justificando esse cretino? Está? Então, você é igual a ele. Tarado como ele!…
Em pânico, Maneco arremessou-se: “Deus me livre! Não estou justificando ninguém e quero que o Bezerra vá para o raio que o parta!”

Recuando, a mulher perguntava: “Quando você olhou para Sandra, no tal dia, você sentiu o quê? Hein?

O rapaz ofegou:

- Eu? Nada, minha filha, nada! Eu sou diferente. Eu me casei contigo, que és a melhor mulher do mundo.

Ouviste? – falava com a boca dentro da orelha da esposa. – Nenhuma mulher é páreo para ti. Nenhuma chega a teus pés. Dá um beijinho, anda?

Agarrou-a, deu-lhe um beijo, cuja duração prolongou ao máximo de sua própria capacidade respiratória. Quando a largou, mais morta que viva, com batom até na testa, Flávia gemeu maravilhada: “Sabes que eu gosto do teu cinismo?”

E ele jocoso:

- Aproveita! Aproveita!

O drama

Mas a situação era de fato crítica. A família, sem exclusão das criadas, passou a abominar o tarado. Até o cão da casa, um vira-lata disfarçado, parecia contagiado pelo horror; e andava, pelas salas, soturnamente, de orelhas arriadas. Quanto ao pobre culpado, estava, na garagem de casa, em petição de miséria. Atirado num canto, num desmoronamento total, cabelo na testa, gemeu para Maneco: “Só faltam me cuspir na cara!”

Maneco olhou para um lado, para o outro, e baixou a voz:

- Mas que mancada! Como é que você me dá um fora desses!

Estrebuchou: “Eu não dei fora nenhum!” Agarrou-se ao cunhado: “Por essa luz que me alumia, te juro que não fiz nada. Ela que deu em cima de mim, só faltou me assaltar no corredor. Tive tanto azar que ia passando a criada. Viu tudo! Uma tragédia em 35 atos!”

Ralado de curiosidade, Maneco baixou a voz:

- O que é que houve, hein?

O outro foi modesto:

- Não houve nada. Um chupão naquela boca. Eu beijava aquele corpo todinho. Começava no pé. Mas não tive nem tempo. Estão fazendo um bicho-de-sete-cabeças, não sei por quê!…
Maneco esbugalhava os olhos, numa admiração misturada de inveja: “Você é de morte!” Doutrinou o desgraçado: “Teu mal foi entrar de sola. Por que não usaste de diplomacia?” Bezerra apertou a cabeça entre as mãos:

- Só estou imaginando quando o velho souber!

Admitiu:

- Vai subir pelas paredes!

o sogro

E de fato, o Dr. Guedes era o terror e a veneração daquela família. Esposa, filhas e genros, numa unanimidade compacta, tributavam-lhe as mesmas homenagens. Era de alto a baixo, uma dessas virtudes tremendas que desafiam qualquer dúvida. Infundia respeito, desde a indumentária. Com bom ou mau tempo, andava de colete, paletó de alpaca, calça listrada e botinas de botão.

Com os cunhados, Maneco desabafava: “Sabe o que é que me apavora no meu sogro?”

Explicava: “Um sujeito que usa ceroulas de amarrar nas canelas! Vê se pode?”

Por coincidência, Dr. Guedes chegou nesse dia, tarde. Já, então, Maneco, com a natural pusilanimidade de marido, solidarizava-se com o resto da família. Grave e cínico, concordava em que o Bezerra batera “todos os recordes mundiais de canalhice”.

Pois bem. Chega o Dr. Guedes com o seu inevitável guarda-chuva de cabo de prata. Vê, por toda a casa, fisionomias espavoridas. A filha mais velha chora. Por fim, o velho pergunta, desabotoando o colete:

- Que cara de enterro é essa?…

calamidade

Então a mulher o arrastou para o gabinete. Conta-lhe o ocorrido; concluiu: “Eu admito que um marido possa ter lá suas fraquezas. Mas com a irmã da mulher, não! Nunca!” repetia: “Com a irmã da mulher é muito desaforo!”

O velho ergueu-se, fremente: “Cadê esse patife?” Trincava as sílabas nos dentes: “Cachorro!” No seu desvario, procurava alguma coisa nos bolsos, nas gavetas próximas:

- Dou-lhe um tiro na boca!

E a mulher, chorando, só dizia: “Foi escolher justamente a caçula, uma menina, quase criança, meu Deus do Céu!” Mas já o velho abria a porta e irrompia na sala dando patadas no assoalho: “Tragam esse canalha!”

Houve um silêncio atônito. Flávia cutucou o marido: “Vai, meu filho, vai!” Arremessou-se Maneco. Foi encontrar o outro no fundo da garagem, de cócoras, como um bicho.

Bateu-lhe, cordialmente, no ombro: “O home te chama.”

Foi avisando: “O negócio está preto. Ele quer dar tiros, o diabo a quatro!”

Bezerra estancou, exultante: “Se ele me der um tiro, é até um favor que me faz. Ótimo!”

Numa súbita necessidade de confidência, apertou o braço de Maneco: “Eu sei que Sandra é uma vigarista, mas se, neste momento, ela me desse outra bola, eu ia, te juro, com casca e tudo!…” [HAHahHAhaHAhaH]

humilhação

Na sala, foi uma cena dantesca. O sogro o segurava, com as duas mãos, pela gola do paletó: “Então, seu canalha? Está pensando que isso aqui é o quê? Casa da mãe Joana?”

Houve um momento em que o desgraçado, soluçando, caiu de joelhos aos pés do velho. As mulheres paravam de respirar, vendo aquele homem receber pontapés, como uma bola de futebol. Rosnavam-se, profusamente, as palavras “monstro”, “tarado”, etc, etc.

Só uma estava quieta, impassível. Era Sandra, a caçula. Com um palito de fósforos limpava as unhas, muito entretida. De repente achou que era demais.

Ergueu-se, foi até a porta do gabinete e, de lá, chamou: “Quer vir, aqui, um instante, pai?” E insistiu: “Quer?”

E justamente, Dr. Guedes escorraçava o genro: “Rua! Rua!” Mas a caçula, sem mais contemplações, agarrou-o pelo braço, numa energia tão inesperada e viril, que ele se deixou dominar. Entraram no gabinete e a própria Sandra fechou a porta.

Estava, agora, diante do espantado Dr. Guedes.

Foi sumária:

- Papai, eu sei que o senhor tem uma Fulana assim assim que mora no Grajaú. Percebeu? E das duas, uma: ou o senhor conserta essa situação ou eu faço a sua caveira aqui dentro!… – Olhou para essa filha, que assim o ameaçava, como se fosse uma desconhecida.

Ela concluía: – Bezerra não vai deixar a casa coisa nenhuma. Eu não quero!… – O velho reapareceu, cinco minutos depois, já recuperado. Pigarreou:

- Vamos pôr uma pedra em cima disso, que é mais negócio. O que passou, passou. Está na hora de dormir, pessoal.

Então, um a um, os casais foram passando.

Por último, Bezerra e a mulher.

Ao pôr o pé no primeiro degrau, Bezerra dardejou para Sandra um brevíssimo olhar. E só.

A caçula retribuiu, piscando o olho.

Cinco minutos depois, estava o velho, grudado ao rádio, ouvindo o jornal falado das 11 horas.

[O MONSTRO in A Vida Como Ela É - Nelson Rodrigues]

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