Era uma vez um Menino Azul que gostava muito, muito mesmo do dia. Ele corria, pulava, aprendia e dava gargalhadas contagiantes pela casa. Azul – era assim que todos o chamavam – gostava de observar o mundo de forma clara e tranquila: sem nenhum tipo de meio-termos… Por isso, os dias na vida do menino possuíam vários tons de amarelo que cheiravam a bolo de laranja e suco de tangerina.

Quando a noite se aproximava Azul saía em disparada pela casa para acender todas as luzes. Sempre que o sol sumia no horizonte e a noite tomava o que era seu por direito, o menino não se continha e gritava para a Lua:

– Eu Não gosto de você! Eu Quero a Luz do MEU SOL de volta! Quero o MEU AMIGO AMARELO!

A Lua, entretanto, nunca o respondia… continuava com a sua carinha blasé, mudando e iluminando as noites na companhia das estrelas a cintilar pelos céus.

O menino após tanto resmungar, acabava por adormecer abraçado ao lençol e à lanterna (que para ele, tinha função de espada protetora, contra os malefícios da noite)

Afinal, não podemos esquecer que Azul era ainda um menino e, como tal, não aguentava esperar uma noite inteirinha por Amarelo.

Certa feita, ao acordar, Azul sentiu os primeiros raios da manhã mais próximos do que o de costume e tal foi a sua surpresa quando notou que Amarelo estava calorosamente sentado ao seu lado.

– SOL, VOCÊ CHEGOU! – exclamou o menino com MUITA alegria.

– Sim meu amigo! Vim até aqui conversar com você!

O menino notou que a voz de amarelo transmitia a sensação de uma paz feita de algodão muito, muito confortável…

– Azul, o dia e a noite são complementos. Quando estou no céu, vocês aqui na Terra enxergam as coisas como são. Vocês brincam, aprendem, amam, brigam… Mas é durante a noite que vocês percebem melhor o que os assusta, quais são os seus medos… É na escuridão, iluminada pela amiga Prateada, que vocês, seres humanos, realmente se conhecem. Por isso a noite, assim como o dia, são tão importantes.

Sol continuou:

– Como vocês me celebrariam com tanta alegria, como fonte de vida e de luz, se vocês não conhecessem o outro lado? Que representa o que vocês não conhecem… ainda? Como sentiriam minha proteção, aconchego… e saberiam que ela é boa e necessária… Se não conhecessem a solidão e as sombras que a constituem?

– Na verdade, meu caro amigo, você só sabe o quanto sou importante… devido a noite, domínio da minha amiga Lua. Se ela não existisse, os dias seriam sempre claros, vocês só veriam o mundo como ele é. Não perceberiam como vocês sentem o mundo… Não precisariam da imaginação… muito menos de historinhas para dormir… O mundo já estaria muito bem explicado: sem sombras, sem dúvidas… É por isso que ela, a Lua é o que torna este planeta completo… Eu, com a minha luz. Ela, como reflexo do meu calor. Nós dois, cada um no seu domínio, possibilitamos que você e todos os demais possam existir.

– É por isso que na noite existem tantas estrelas no céu: Sabia que elas são pequenos sóis? Milhares de pequenos sóis a brilhar na eternidade. Minha Luz, que para você é tão essencial… compõe a noite e não passa de um pequeno e despercebido brilho para alguém em algum outro lugar.

– Azul, naquelas noites em que a Lua não aparecer no Céu… E você se sentir sozinho e com medo…

– Lembre-se que o que importa não é a luz exterior que te guia e clareia os caminhos… Mas sim… a luz que você está aprendendo a cultivar, dentro do teu coração. Sempre que aparecer algo que te assusta… amedronta… essa luz te fará tomar cuidado e observar cada pequeno passo que você dará por entre as sombras e a escuridão.

– Teus medos, azul… Serão para sempre os teus guias. Eles servem para que você se mantenha vivo e em constante aprendizado… Por isso, não os transforme em monstros.

– Agindo assim, cada dia será bem aproveitado… e no negrume da noite tu poderás descansar… sonhar… voar… realizar feitos extraordinários e acordar para colocá-los em ação!

O Sol após esta lição, tornou-se tão brilhante e intenso, que acabou por deixar Azul com uma agradável sensação de um calor amarelo dando-lhe um abraço…em cada poro, em cada fio de cabelo. Esta era a forma única que Sol conhecia de se apresentar e se despedir daqueles serzinhos que tanto adorava…

Apesar do Menino Azul não ter entendido toda a história – afinal, era apenas uma criança de quase seis anos – ele sentia que aquela voz morna e o abraço aconchegante iria acompanhá-lo sempre, por todos os dias e noites da sua vida…

(escrevi em 2009, inspirado pelo Guga, na época com 05 anos #VidaDeMãe)